Se Liderança é atitude, a selecção portuguesa continua órfã - Camilo Lourenço

Se Liderança é atitude, a selecção portuguesa continua órfã - Camilo Lourenço

Junho de 2014, jogo Portugal-Gana para o Mundial do Brasil. O jogo está empatado mas aos 80 minutos Cristiano Ronaldo apanha uma bola mal aliviada pelo guarda-redes e marca o 2-1 com que o jogo viria a terminar. Ronaldo não celebra, vira as costas à baliza e caminha para o meio campo.

Junho de 2000, jogo Portugal-Inglaterra para o Europeu da Bélgica-Holanda. Portugal perde por 2-0 (golos de Paul Scholes e Steve MacManaman) e tudo parece perdido. Aos 22 minutos Luís Figo apanha a bola no meio-campo e a 35 metros da baliza desfere um fortíssimo pontapé que só termina nas redes da baliza de David Seaman. Figo corre para a baliza pega na bola e corre para o meio campo.

A esta hora o leitor já percebeu a diferença entre as duas atitudes. No primeiro caso estamos perante um derrotado: Ronaldo, o melhor jogador do mundo, não acreditou que Portugal poderia marcar os golos que faltavam para Portugal superar os Estados Unidos e passar aos oitavos-de-final. Figo pelo seu lado acreditava que ainda era possível. E que a equipa podia ir mais longe. Como efectivamente aconteceu: depois do golo de Figo, João Pinto empatou o jogo e, mesmo com o jogo a terminar, Nuno Gomes fez o 3-2 final para Portugal.

Cristiano Ronaldo esqueceu-se que as atitudes contam; estas influenciam as pessoas que trabalham com o líder. E isso viu-se no resto do jogo: Portugal teve ainda várias hipóteses para marcar mais golos ao Gana, uma delas pelo próprio Ronaldo. Mas o jogo terminou com 2-1 e a selecção portuguesa ficou pelo caminho…

É claro que podemos procurar as mais diversas explicações para o comportamento de Cristiano Ronaldo. Dizer que faltavam apenas 10 minutos, que Portugal levava já dois jogos de fracas exibições (que desmoralizaram os jogadores ao ponto da descrença), que no banco nem a equipa técnica rejubilara com o golo, etc, etc. Mas é uma explicação coxa. Desculpabilizadora. E os Líderes não podem usar desculpas, têm de fazer exactamente o oposto: acreditar até ao fim.

Vamos imaginar a situação oposta: Cristiano imitava Figo e corria com a bola para o meio campo para reiniciar rapidamente o jogo. Isso faria a diferença? Portugal marcaria os golos necessários para passar à fase seguinte? Ninguém o pode garantir. Mas o jogador teria mostrado aos colegas, à equipa técnica e aos milhões de “stakeholders” da selecção que o seu empenho e a sua convicção só terminavam com o apito final. E isso teria feito toda a diferença.

O que é que este episódio mostrou? Que a selecção portuguesa continua órfã de um Líder. Durante anos pensou-se que Cristiano Ronaldo poderia ser esse “comandante”. Mas este e aquele episódio fizeram duvidar que seria a escolha certa. Para mim essas dúvidas desapareceram naquele fatídico Portugal-Gana.  

 


Camilo-Lourenco-CronicasCamilo Lourenço é licenciado em Direito Económico pela Universidade de Lisboa. Passou ainda pela Universidade de Columbia, em Nova Iorque e University of Michigan, onde fez uma especialização em jornalismo financeiro. Passou também pela Universidade Católica Portuguesa. Entre a sua experiência profissional encontramos redator principal do “Semanário Económico” (desde 1988); coordenador da secção Nacional do “Diário Económico” (de que foi um dos fundadores) desde 1990. Diretor adjunto da revista “Valor”, que ajudou a fundar (1992). Diretor da mesma revista (1993), onde se manteve até 1995. Editor de Economia da Rádio Comercial, de 1992 a 1997. Diretor editorial das revistas masculinas da Editora Abril/Controjornal: “Exame” (revista que também dirigiu); “Executive Digest”, entre outras. Comentador de assuntos económicos da Rádio Capital, de 2000 a 2005. Diretor da revista “Maisvalia” (de 2003 a 2005). Comentador da RTP e RTP Informação, onde passou também a apresentar o programa “A Cor do Dinheiro” (desde 2007). Colunista do “Jornal de Negócios (desde 2007); comentador de assuntos económicos da Media Capital Rádios (desde 2010). Numa das rádios do grupo, a M80, apresenta dois programas: “Moneybox” e “A Cor do Dinheiro”. Comentador de assuntos económicos da televisão generalista TVI, onde apresenta “Contas na TV”. A par destas funções, Camilo Lourenço é docente universitário. Lecionou na Universidade de Lisboa, na Universidade Lusíada e no Instituto Superior de Comunicação Empresarial. Por outro lado leciona pós-graduações e MBA. Em 2010, por solicitação de várias entidades (portuguesas e multinacionais), começou a fazer palestras de formação, dirigidas aos quadros médios e superiores, em áreas como Liderança, Marketing e Gestão. Em 2007 estreou-se na escrita, sendo o seu livro mais recente “Saiam da Frente!”, sobre os protagonistas das três bancarrotas sofridas por Portugal que continuam no poder.