Quando se confunde Gestão com propriedade do Capital - Camilo Lourenço

Quando se confunde Gestão com propriedade do Capital - Camilo Lourenço

A crise do BES tem sido analisada sob vários ângulos: as falhas de supervisão e de fiscalização (auditoria externa e interna), a dificuldade em detectar esquemas de Ponzi, a gestão danosa, a impreparação de quem investe no mercado de capitais (que parecem desconhecer que quando se investe em acções pode-se perder tudo)… Mas há uma perspectiva que continua ausente das análises: a confusão entre Gestão e propriedade do Capital.

O problema é mais grave do que pode parecer: Portugal é um país que não dispõe do capital suficiente para se desenvolver. Isso em si não é um problema; há muitos países que, pela dimensão da sua economia, estão na mesma situação. No entanto, apresentam um grau de desenvolvimento e de riqueza muito superiores ao nosso. Porquê? Porque não confundem Capital com Riqueza: assumem que não têm Capital e concentram-se na Gestão. O caso mais notório é o da Irlanda, mas outros se poderiam juntar: Luxemburgo, Bélgica, Suíça, etc.

Em Portugal fazemos de conta que temos Capital. Veja-se o trajecto dos grupos portugueses que controlavam a economia antes do 11 de Março de 1975 e que regressaram nas privatizações. A esmagadora maioria das compras de empresas vendidas pelo Estado foi feita com recurso a crédito (com a notável excepção do “industrial” António Champalimaud, que no Brasil reuniu o capital suficiente para regressar às compras). E ao fim de duas décadas continuam tão (ou mais) endividados do que no ponto de partida…

Este complexo (o de querer controlar as empresas “fingindo” que se tem Capital) tem consequências profundamente negativas para o país. Porque não conseguimos fazer bem as duas coisas: os grupos empresariais não conseguem crescer, nomeadamente no exterior, por falta de capital. Não é por acaso que a Troika, ao analisar a economia portuguesa (em 2011), apontou como um dos seus principais problemas o excessivo endividamento das empresas. O FMI, num dos seus relatórios mais recentes, manteve esse diagnóstico: apesar da “desalavancagem” dos últimos três anos, o grau de endividamento da economia (nomeadamente das empresas) continua muito elevado.

Portugal precisa de fazer opções. Uma delas é decidir de que lado quer ficar: ou mantém a propriedade das empresas em mãos nacionais (e empobrece – porque sem capital elas não podem crescer); ou aliena activos a investidores estrangeiros, apostando na Gestão.

Dir-se-á que não temos gestores de topo em quantidade suficiente para fazer essa aposta. É meia verdade: começam a aparecer cada vez mais gestores da geração mais nova com qualidade suficiente para substituir a ”velha guarda” nas empresas. Mas admitamos que, mesmo assim, não chega: mais uma razão para, entregando o controlo das empresas a estrangeiros, criar as condições para trazer Talento para Portugal. É assim que se aprende…

 


Camilo-Lourenco-CronicasCamilo Lourenço é licenciado em Direito Económico pela Universidade de Lisboa. Passou ainda pela Universidade de Columbia, em Nova Iorque e University of Michigan, onde fez uma especialização em jornalismo financeiro. Passou também pela Universidade Católica Portuguesa. Entre a sua experiência profissional encontramos redator principal do “Semanário Económico” (desde 1988); coordenador da secção Nacional do “Diário Económico” (de que foi um dos fundadores) desde 1990. Diretor adjunto da revista “Valor”, que ajudou a fundar (1992). Diretor da mesma revista (1993), onde se manteve até 1995. Editor de Economia da Rádio Comercial, de 1992 a 1997. Diretor editorial das revistas masculinas da Editora Abril/Controjornal: “Exame” (revista que também dirigiu); “Executive Digest”, entre outras. Comentador de assuntos económicos da Rádio Capital, de 2000 a 2005. Diretor da revista “Maisvalia” (de 2003 a 2005). Comentador da RTP e RTP Informação, onde passou também a apresentar o programa “A Cor do Dinheiro” (desde 2007). Colunista do “Jornal de Negócios (desde 2007); comentador de assuntos económicos da Media Capital Rádios (desde 2010). Numa das rádios do grupo, a M80, apresenta dois programas: “Moneybox” e “A Cor do Dinheiro”. Comentador de assuntos económicos da televisão generalista TVI, onde apresenta “Contas na TV”. A par destas funções, Camilo Lourenço é docente universitário. Lecionou na Universidade de Lisboa, na Universidade Lusíada e no Instituto Superior de Comunicação Empresarial. Por outro lado leciona pós-graduações e MBA. Em 2010, por solicitação de várias entidades (portuguesas e multinacionais), começou a fazer palestras de formação, dirigidas aos quadros médios e superiores, em áreas como Liderança, Marketing e Gestão. Em 2007 estreou-se na escrita, sendo o seu livro mais recente “Saiam da Frente!”, sobre os protagonistas das três bancarrotas sofridas por Portugal que continuam no poder.