Quando sujeitamos os nossos partidos políticos à “prova do algodão” - Camilo Lourenço - Camilo Lourenço

Quando sujeitamos os nossos partidos políticos à “prova do algodão” - Camilo Lourenço - Camilo Lourenço

Quando olhamos para uma organização quais as primeiras perguntas que fazemos para a analisar? A primeira é: qual o seu modelo de negócio (isto é, como é que cria riqueza).

A segunda: onde é que a organização pretende estar daqui a 5 ou 10 anos (ou seja, qual é a visão de quem a dirige)? A terceira é ainda mais simples: essa visão está a ser bem executada? A ordem das questões é arbitrária; a numeração serve apenas para sistematizar…

É verdade que há muitas mais perguntas que se podem fazer para entender uma organização (empresarial ou não). Mas estas três proporcionam uma panorâmica geral do que ela é e, sobretudo, da forma como é dirigida: é raro encontrar uma empresa de sucesso onde as questões referidas acima não estejam claras em todos os níveis da organização, desde o CEO até ao “plant floor”. 

Agora vou propor-lhe um exercício: olhe para as propostas de todos os partidos políticos portugueses e sujeite-as à “prova do algodão”. 

Faça a primeira pergunta: consegue perceber onde é que os nossos dirigentes querem que Portugal esteja daqui a 10 anos? Ok, eu sei que há políticos que falam em propostas para uma década. Mas isso não é nada: é preciso detalhar o projecto: quais as metas (finais) concretas; como vamos lá chegar; quais os objectivos intermédios; qual o grau de consenso entre as várias forças que governam o país para se comprometerem com esses objectivos (para evitar que o partido que ganha eleições desfaça tudo o que o anterior fez). 

Pois… Portugal não tem uma estratégia a médio e longo prazo. Nunca teve nos 40 anos que leva de vida democrática. É por isso que é um país pobre, embora tenha recursos mais do que suficientes para ser um país rico. 

Voltemos à liderança nas organizações. A vida empresarial está cheia de exemplos de organizações que quase desapareceram por falharem na resposta às três primeiras questões de que falámos acima. Mas também está cheia de exemplos de empresas que deram a volta por cima; em alguns casos com “turnarounds” fantásticos. Porque importaram “líderes” que souberam transmitir uma visão de futuro e… implementaram-na. O exemplo clássico é a Apple, mas há muitos mais.

Mudemos novamente de plano. Não é possível fazer o “turnaround” de um país? Claro que é. A questão é que precisamos de afastar os líderes que não nos conseguem galvanizar para a mudança, dando lugar a uma nova geração. Sim, precisamos de colocar Portugal nas mãos da geração que tem agora 40 e 50 anos. A questão é saber como é que isso se faz. Porque as estruturas dos partidos estão tão anquilosadas que matam, à nascença, qualquer tentativa de mudança.

Nota: Qualquer semelhança entre a situação descrita nos dois últimos parágrafos e o momento político vivido nos últimos meses não é mera coincidência…

 


Camilo-Lourenco-CronicasCamilo Lourenço é licenciado em Direito Económico pela Universidade de Lisboa. Passou ainda pela Universidade de Columbia, em Nova Iorque e University of Michigan, onde fez uma especialização em jornalismo financeiro. Passou também pela Universidade Católica Portuguesa. Comentador de assuntos económicos e financeiros em vários canais de televisão generalista, é também docente universitário. Em 2010, por solicitação de várias entidades (portuguesas e multinacionais), começou a fazer palestras de formação, dirigidas aos quadros médios e superiores, em áreas como Liderança, Marketing e Gestão. Em 2007 estreou-se na escrita, sendo o seu livro mais recente “Saiam da Frente!”, sobre os protagonistas das três bancarrotas sofridas por Portugal que continuam no poder.