A Gestão como concurso de “misses” - Os primeiros dias no cargo - Camilo Lourenço

A Gestão como concurso de “misses” - Os primeiros dias no cargo - Camilo Lourenço

É costume dizer-se que os primeiros cem dias são cruciais para um governo. Não porque seja esse o “período de graça”, que lhe permite fazer tudo o que tem de fazer sem protesto; mas porque é nesse espaço de tempo que se afirma o DNA desse mesmo governo. Sendo que o DNA significa a identidade: qual a sua visão? Qual a sua determinação em implementar essa visão? O que está disposto a sacrificar nesse processo? a analisar? A primeira é: qual o seu modelo de negócio (isto é, como é que cria riqueza).

O que se disse acima para os governos vale, em minha opinião, para as empresas. Ou melhor para quem as dirige: quando chega um novo Chief Executive Officer todos os níveis de uma empresa (desde os quadros superiores ao “plant floor worker”) centram nele as suas atenções. É por isso que os primeiros sinais que o CEO transmite são fundamentais para afirmar a sua identidade. E dela depende, literalmente, todo o seu futuro na organização.

A experiência da vida empresarial mostra uma grande diversidade de “modelos” nesta matéria. Há CEO que, mal chegam, gostam de deixar claro “quem manda”. Há outros que preferem o “soft approach”, enquanto ainda outros preferem tomar decisões por consenso. E poderíamos seguir por aí fora…

Qual a melhor estratégia para um recém-chegado CEO? Não há respostas “chapa cinco”. Mas há comportamentos que não se pode ter. Um deles, muito frequente, é tentar agradar a todos. Uma espécie de busca-de-consenso-a-todo-o-custo. Nuns casos, para comprar a paz social; noutros, porque o CEO acredita piamente que o diálogo permanente permite chegar às decisões mais acertadas. Mas, na maior parte das vezes, esta obsessiva procura do consenso esconde o receio de tomar decisões para não desagradar a certas facções dentro da empresa. 

É escusado dizer que se trata de um erro. Crasso. Um CEO não vai para esse posto para agradar a toda a gente; vai para rentabilizar o investimento que os accionistas fizeram. E, portanto, o seu objectivo só pode ser um: entregar (no sentido de “deliver”). 

A direcção de uma empresa não é um concurso de “misses”, onde o CEO procura obter o apoio de todos para ser o mais popular. Se tiver de tomar decisões difíceis, que desagradam a este ou àquele departamento (v.g. despedimentos, descontinuação de uma linha de produto, etc.), tem mesmo de as tomar. 

Pergunta: ao tomar essas decisões não corre o risco de perder o apoio de quem trabalha para a organização? Não, desde que saiba explicar a sua visão e a forma de a implementar. E este ponto é crucial: qualquer quadro percebe uma decisão difícil, desde que ela não seja produto do livre arbítrio do decisor. Ou seja, se ela tiver uma ratio por detrás. O mesmo é dizer, se a decisão criar valor para a empresa.

 


Camilo-Lourenco-colunaCamilo Lourenço é licenciado em Direito Económico pela Universidade de Lisboa. Passou ainda pela Universidade de Columbia, em Nova Iorque e University of Michigan, onde fez uma especialização em jornalismo financeiro. Passou também pela Universidade Católica Portuguesa. Entre a sua experiência profissional encontramos redator principal do “Semanário Económico” (desde 1988); coordenador da secção Nacional do “Diário Económico” (de que foi um dos fundadores) desde 1990. Diretor adjunto da revista “Valor”, que ajudou a fundar (1992). Diretor da mesma revista (1993), onde se manteve até 1995. Editor de Economia da Rádio Comercial, de 1992 a 1997. Diretor editorial das revistas masculinas da Editora Abril/Controjornal: “Exame” (revista que também dirigiu); “Executive Digest”, entre outras. Comentador de assuntos económicos da Rádio Capital, de 2000 a 2005. Diretor da revista “Maisvalia” (de 2003 a 2005). Comentador da RTP e RTP Informação, onde passou também a apresentar o programa “A Cor do Dinheiro” (desde 2007). Colunista do “Jornal de Negócios (desde 2007); comentador de assuntos económicos da Media Capital Rádios (desde 2010). Numa das rádios do grupo, a M80, apresenta dois programas: “Moneybox” e “A Cor do Dinheiro”. Comentador de assuntos económicos da televisão generalista TVI, onde apresenta “Contas na TV”. A par destas funções, Camilo Lourenço é docente universitário. Lecionou na Universidade de Lisboa, na Universidade Lusíada e no Instituto Superior de Comunicação Empresarial. Por outro lado leciona pós-graduações e MBA. Em 2010, por solicitação de várias entidades (portuguesas e multinacionais), começou a fazer palestras de formação, dirigidas aos quadros médios e superiores, em áreas como Liderança, Marketing e Gestão. Em 2007 estreou-se na escrita, sendo o seu livro mais recente “Saiam da Frente!”, sobre os protagonistas das três bancarrotas sofridas por Portugal que continuam no poder.