A “fiscalidade verde” e a liderança por antecipação - Camilo Lourenço

A “fiscalidade verde” e a liderança por antecipação - Camilo Lourenço

Na semana passada o governo anunciou a introdução da “fiscalidade verde” em Portugal. Uma forma bonita de compensar a perda de receita no IRS (ano eleitoral oblige…).

Deixemos este pormenor de lado para voltar à fiscalidade verde. Ela prevê a introdução de novos impostos em certas áreas. Os sacos de plástico (que todos usamos nas compras), por exemplo, vão custar 10 cêntimos…

Logo depois do anúncio destas medidas, ouvi a responsável de um conjunto de empresas de plásticos criticar violentamente o governo. Que o sector, com cerca de 60 empresas e de 3 mil trabalhadores, não aguenta a introdução deste imposto. Que algumas dessas empresas fizeram, recentemente, investimentos pesados para produzir sacos de plástico, etc., etc. 

Não morro de amores pela forma (e objectivos) como o governo introduz agora a fiscalidade verde. Mas também não morro de amores por gestores que têm dificuldade em entender o que é Gestão e Liderança. Eu explico: há quanto tempo ouvimos dizer que os sacos de plástico estão na mira do legislador, em Portugal e no exterior, por causa do impacto que têm no ambiente (lembra-se do artigo da semana passada, o do planeamento)? Como é que algumas empresas fazem investimentos para aumentar a capacidade de produção de um artigo que está… potencialmente ameaçado? Ok, aceito a explicação de que os empresários e gestores não podem viver de “ses” (se o governo fizer isto, se a fiscalidade mudar, se a procura cair…), caso contrário não tomariam decisões. Mas têm de estar preparados para reagir caso as coisas não corram de feição. 

No caso concreto das empresas de plásticos, não lhes adianta nada chorar sobre o leite derramado; têm de reagir. E reagir é começarem a vender para mercados onde as restrições ambientais ainda não se fazem sentir com a acutilância do português (e europeu); ou/e começarem a fazer outros produtos que não sacos de plástico (cuja procura vai, inevitavelmente, cair).

O “choradinho” é uma das piores características da mentalidade portuguesa; um dos factores que mais atrasa o nosso desenvolvimento. E é um mal de que padecem muitos empresários e gestores. Uma dificuldade tem de ser encarada como uma oportunidade, não como um problema: se a GE não se tivesse continuamente reinventado, ao longo do último século, não seria a empresa mais antiga no índice Dow Jones… 

Os gestores que não percebem a diferença entre “choradinho” e reinvenção, estão a passar uma péssima mensagem às pessoas que consigo trabalham. A de que não sabem antecipar problemas ou, pior, que não sabem transformar um problema numa oportunidade para a empresa.

 


Camilo-Lourenco-colunaCamilo Lourenço é licenciado em Direito Económico pela Universidade de Lisboa. Passou ainda pela Universidade de Columbia, em Nova Iorque e University of Michigan, onde fez uma especialização em jornalismo financeiro. Passou também pela Universidade Católica Portuguesa. Comentador de assuntos económicos e financeiros em vários canais de televisão generalista, é também docente universitário. Em 2010, por solicitação de várias entidades (portuguesas e multinacionais), começou a fazer palestras de formação, dirigidas aos quadros médios e superiores, em áreas como Liderança, Marketing e Gestão. Em 2007 estreou-se na escrita, sendo o seu livro mais recente “Saiam da Frente!”, sobre os protagonistas das três bancarrotas sofridas por Portugal que continuam no poder.