Como separar o trigo do joio na Gestão - Camilo Lourenço

Como separar o trigo do joio na Gestão - Camilo Lourenço

Uma das coisas que mais me preocupava, enquanto exerci funções de direcção em empresas, era separar as “teorias da moda” das “teorias-que-funcionam”. Eu explico.

Hoje em dia, assistimos a uma proliferação de teorias de Gestão: ele é jornais de negócios, ele é revistas de economia… todos falam de Gestão e de Liderança. Nesta área, estamos a viver o mesmo que se vive em outras áreas da sociedade e do conhecimento: a competição por audiências. Daqui à “venda” das teorias mais idiotas vai uma pequena distância. 

Em momentos destes, é muito importante agarrarmo-nos a dois ou três pilares que funcionem como fontes de inspiração na nossa vida profissional. Um dos meus pilares tem sido a “Harvard Business Review”. Porquê? Porque tem evitado fugir àquilo que é a guerra de audiências, sem no entanto perder o “drive” da mudança. 

Mas há alturas em que ficamos com dúvidas sobre o bom senso desses mesmos pilares. Há pouco tempo, a HBR publicou uma lista dos 100 melhores CEO do mundo e constatou que, dentre eles, 24 tinham formação em engenharia. A acompanhar a lista estava um curioso artigo do “dean” da Harvard Business School, onde este procurava tirar conclusões deste facto: “A engenharia preocupa-se com aquilo que funciona e cria na pessoa um ‘ethos’ tendente a construir coisas que funcionam. Quer estejamos a falar de uma estrutura ou de uma organização” (tradução minha).

O artigo inspirou outro da autoria de Herminia Ibarra, no “Financial Times”, onde a professora do INSEAD tenta identificar as características mais apreciadas nos CEO da actualidade. Ibarra  analisa o recente afastamento de dois CEO (Bill Gross, da PIMCO, e Chris Viebacher, da Sanofi) e chega a uma conclusão: o mercado, hoje, prefere pessoas com um conceito diferente de Gestão. Em vez do estilo “go it alone” e “explosivo”, prefere gestores/líderes que apostam na ideia de que o fundamental é gerir equipas. 

Tenho estas duas publicações, há muitos anos, como minhas “bíblias”. Uma na área de Economia, embora com incursões na Gestão (“Financial Times”) e outra na área de Gestão (“Harvard Business Review”). Mas confesso que tenho muitas dúvidas de que analisar a Gestão sob este ponto de vista nos possa levar a algum lado. 

É verdade que as tendências actuais parecem sugerir que o estilo “bossy” está ultrapassado. Mas a verdade é que continuamos a encontrar exemplos de que há empresas onde isso funciona. Veja-se a Apple até à morte de Steve Jobs. Por outro lado, dizer que o estilo prático dos engenheiros dá-lhes uma vantagem sobre pessoas formadas noutras é, no mínimo…, “far fetched”. Mas quem sou eu para contestar, ou mesmo duvidar, daqueles mestres da teoria da Gestão?

 


Camilo-Lourenco-colunaCamilo Lourenço é licenciado em Direito Económico pela Universidade de Lisboa. Passou ainda pela Universidade de Columbia, em Nova Iorque e University of Michigan, onde fez uma especialização em jornalismo financeiro. Passou também pela Universidade Católica Portuguesa. Comentador de assuntos económicos e financeiros em vários canais de televisão generalista, é também docente universitário. Em 2010, por solicitação de várias entidades (portuguesas e multinacionais), começou a fazer palestras de formação, dirigidas aos quadros médios e superiores, em áreas como Liderança, Marketing e Gestão. Em 2007 estreou-se na escrita, sendo o seu livro mais recente “Saiam da Frente!”, sobre os protagonistas das três bancarrotas sofridas por Portugal que continuam no poder.