O caso Banco Espírito Santo. Onde está a Liderança? – Camilo Lourenço

O caso Banco Espírito Santo. Onde está a Liderança? – Camilo Lourenço

Confesso que esta semana ia falar de Liderança e Gestão em termos conceptuais. É importante mergulhar de vez em quando nos conceitos, para fazermos um check-up àquilo que vamos fazendo, na prática, como gestores.

Voltando às “confissões”, até já tinha a tal matéria conceptual pronta. Mas não resisti a regressar à actualidade. Porquê? Já vai ver…

Tem estado atento à comissão parlamentar de inquérito ao caso Banco Espírito Santo? Por lá já passaram figuras essenciais para deslindar o último escândalo financeiro que tivemos: o governador do Banco de Portugal, o vice-governador que à época tutelava a supervisão dos bancos, um ex-ministro das Finanças, a actual ministra das Finanças e o presidente da CMVM.

Sei que ainda falta a figura principal (isto é understatement) de tudo isto: Ricardo Salgado. Mas vale a pena analisar três pontos: a falta de capacidade de antecipação, o jogo do “empurra” e a dificuldade em perceber onde está o vilão…

O jogo do “empurra” é fácil de perceber: ouve-se figuras-chave do processo e fica-se com a impressão que ninguém quer assumir a decisão que viabilizou a entrada do Fundo de Resolução no banco. Será que aqueles actores não percebem que a função de um gestor é tomar decisões (custe o que custar à sua imagem e/ou ao seu futuro político)? 

O terceiro ponto, a dificuldade em perceber quem é o vilão, também não tem mistério: ouve-se os deputados, e até parte da minha classe (Imprensa), e ficamos com dúvidas sobre quem é a personagem (s), responsável pelo afundamento do banco. E não é seguramente a ministra das Finanças nem o governador do Banco de Portugal…

A falta de capacidade de antecipação é o ponto que mais me incomoda, como analista. Porque é aquele onde se notam as maiores falhas na Liderança e Gestão. Houve o caso BPN (cuja primeira notícia de problemas foi dada pela “Exame”, em 2001); houve o caso BPP; houve os problemas com o BCP… Durante estes anos, o que andou a fazer o gestor responsável pela Supervisão do banco central? 

Um gestor, ensinaram-me quando assumi funções de Direcção pela primeira vez, é alguém cuja principal missão é antecipar problemas e encontrar soluções para os mesmos. Ora vamos lá aplicar isto à prática: já tinha havido problemas; logo quem estava à frente da Supervisão tinha obrigação de ter percebido que, ou mudava a forma de funcionamento do seu departamento, ou os problemas repetir-se-iam no futuro (como efectivamente aconteceu – e desconfio que voltaria a acontecer). Simples, não é? Pelos vistos não…

 


Camilo-Lourenco-colunaCamilo Lourenço é licenciado em Direito Económico pela Universidade de Lisboa. Passou ainda pela Universidade de Columbia, em Nova Iorque e University of Michigan, onde fez uma especialização em jornalismo financeiro. Passou também pela Universidade Católica Portuguesa. Comentador de assuntos económicos e financeiros em vários canais de televisão generalista, é também docente universitário. Em 2010, por solicitação de várias entidades (portuguesas e multinacionais), começou a fazer palestras de formação, dirigidas aos quadros médios e superiores, em áreas como Liderança, Marketing e Gestão. Em 2007 estreou-se na escrita, sendo o seu livro mais recente “Saiam da Frente!”, sobre os protagonistas das três bancarrotas sofridas por Portugal que continuam no poder.