A natureza humana, os erros e as excepções – Camilo Lourenço

A natureza humana, os erros e as excepções – Camilo Lourenço

Há dias, um leitor habitual deste site escreveu-me a dar feedback sobre o nosso trabalho. A dado momento do email, perguntava: “Não obstante o bom trabalho que fazem, não se sentem incomodados quando alguém que homenagearam no passado vos desilude?”

Na troca de emails que se seguiu, percebi que o leitor se referia ao prémio atribuído ao antigo CEO da PT, Zeinal Bava

É uma boa questão. Como jornalista, não é a primeira vez que sou confrontado com ela. Há anos, um empresário perguntava-me se, enquanto director da publicação, não me sentia “traído” por um empresário que tínhamos elogiado profusamente anos antes. Empresário cuja organização, entretanto, entrara em declínio. A explicação que lhe dei na altura, foi a mesma que dei ao leitor que me escreveu na semana passada: 

  1. Os critérios que nos levam a fazer as escolhas não são do nosso livre arbítrio. Baseiam-se em critérios quantitativos e qualitativos. Por exemplo, as contas das empresas, um dos critérios utilizados, são certificadas por entidades especialmente criadas para esse efeito. E temos de confiar nelas…
  2. Salvo raras excepções, quando um empresário ou gestor cai em desgraça, não significa que todo o trabalho anterior, e que motivou certo prémio, estivesse errado. É o caso de Zeinal Bava: apesar do erro que lhe custou o cargo, deixou um importante e valioso trabalho na PT. E, pessoalmente, estou convencido que Bava tem qualidades para voltar a ser um gestor de topo (como digo no meu próximo livro “Irresponsáveis”).
  3. Temos de saber colocar as coisas no seu devido lugar. Desde a criação dos Best Leader Awards, já foram atribuídos 35 prémios em Portugal e 10 nos Estados Unidos. Ou seja, neste tipo de prémios poderá ocorrer uma “casualty” de uns míseros 2,2%. No caso dos Best Leader Awards, focam-se não apenas os resultados financeiros, mas sobretudo o impacto que estes geram na organização em causa e na sociedade. Mais que as questões financeiras, a seleção dos líderes tem um grande foco no desenvolvimento e na criação de talento com base numa liderança ética, positiva e geradora de valor.
  4. É preciso olhar para as coisas como um todo. Isto é, há exemplos notáveis de empresas e gestores que continuam a fazer excelência. Veja-se o vencedor de um dos prémios do ano passado: a Sodecia, dirigida por Rui Monteiro. A empresa, embora discreta no panorama mediático português, tem vendas de 500 milhões de euros e fábricas no Brasil, Estados Unidos, Portugal, África do Sul, China e Canadá.
 
O que é que tudo isto significa? Que temos de saber relativizar as coisas. As empresas são dirigidas por Homens. Ora a natureza humana é atreita a percalços e só não os tem quem nada faz. Nós nunca conseguiremos, por mais checks and balances que introduzamos no processo de análise, extirpar a probabilidade de errar nas decisões que tomamos. O que é preciso é que o processo seja suficientemente bom para assegurar que os erros não passam de... pequenas excepções e oportunidades de aprendizagem.

 


Camilo-Lourenco-colunaCamilo Lourenço é licenciado em Direito Económico pela Universidade de Lisboa. Passou ainda pela Universidade de Columbia, em Nova Iorque e University of Michigan, onde fez uma especialização em jornalismo financeiro. Passou também pela Universidade Católica Portuguesa. Comentador de assuntos económicos e financeiros em vários canais de televisão generalista, é também docente universitário. Em 2010, por solicitação de várias entidades (portuguesas e multinacionais), começou a fazer palestras de formação, dirigidas aos quadros médios e superiores, em áreas como Liderança, Marketing e Gestão. Em 2007 estreou-se na escrita, sendo o seu livro mais recente “Saiam da Frente!”, sobre os protagonistas das três bancarrotas sofridas por Portugal que continuam no poder.