O que é que o Santander tem que os outros não têm? – Camilo Lourenço

O que é que o Santander tem que os outros não têm? – Camilo Lourenço

O que têm em comum Eduardo Stock da Cunha, Nuno Amado, Vieira Monteiro e António Osório? Todos passaram pelas cadeiras do Santander. Tudo começou no início da década de 90, quando Ana Patricia Botin convidou Horta Osório para criar o Banco Santander de Negócios Portugal.

Osório foi buscar pessoas que conhecia bem para o seu círculo próximo, algumas das quais já tinham trabalhado com ele no Citibank (onde Osório tinha sido director do mercado de capitais). Cito de memória: Nuno Amado, Eduardo Stock da Cunha, Sofia Frère, Luis Bento dos Santos, João Ermida, Miguel Bragança... 

Anos mais tarde, quando o Santander junta ao seu portfolio o Totta & Açores, numa azeda batalha com o governo português (ver livro “Irresponsáveis”), Osório passa a responsável do grupo em Portugal. E vai buscar Vieira Monteiro para a administração, onde está também Nuno Amado, Luís Bento dos Santos e Miguel Bragança. 

Daquele grupo de colaboradores, Stock da Cunha, Nuno Amado e Vieira Monteiro chegaram a presidentes de bancos (Bento dos Santos é um dos administradores do Santander Totta): Stock da Cunha no Novo Banco, Vieira de Castro no Santander Totta (com a saída de Osório para Inglaterra) e Nuno Amado no Millennium BCP (onde tem feito, aliás, um trabalho notável). Para não falar de Elias da Costa, no Banco Santander de Negócios.

Isto significa alguma coisa? Significa. Não é normal ver, num espaço de tempo tão curto, tantos elementos de uma pequena equipa chegarem aos destinos máximos de três bancos. 

E como explicar este “fenómeno”? Não vou simplificar a resposta fulanizando a questão (algo a que somos muito dados em Portugal). Ou seja, há aqui, indiscutivelmente elementos de valia pessoal do líder António Osório, com quem todos eles trabalharam. Mas há também uma componente institucional importante. O mesmo é dizer que estamos perante um contributo significativo da chamada “escola Santander”. Isso ajuda a explicar o crescimento extraordinário que estas pessoas tiveram em tão pouco tempo. Até porque têm formações e experiências profissionais muito diferentes. Nuno Amado, por exemplo, é um homem “de números”: começou na auditoria. Stock da Cunha, por sua vez, esteve ligado à banca de investimentos, por definição muito diferente da banca comercial (o Novo Banco é um banco comercial). Mas não é por isso que deixa de fazer um excelente trabalho na instituição que agora lidera… como se tem visto.

Se há coisa que temos de retirar desta “diáspora” do Santander, é que ela pode ser um bom case-study para outras instituições em Portugal. Contam-se pelos dedos as empresas que, entre nós, podem ser consideradas escolas de liderança. Em tempos houve o BPA, de onde saíram muito dos actuais banqueiros. Mas o exemplo não medrou. É verdade que, aqui e ali, vão aparecendo alguns bons exemplos. Mas não chega. E, mais importante do que apostar neste ou naquele líder, o que realmente interessa é criar escolas de líderes.  

 


Camilo-Lourenco-colunaCamilo Lourenço é licenciado em Direito Económico pela Universidade de Lisboa. Passou ainda pela Universidade de Columbia, em Nova Iorque e University of Michigan, onde fez uma especialização em jornalismo financeiro. Passou também pela Universidade Católica Portuguesa. Comentador de assuntos económicos e financeiros em vários canais de televisão generalista, é também docente universitário. Em 2010, por solicitação de várias entidades (portuguesas e multinacionais), começou a fazer palestras de formação, dirigidas aos quadros médios e superiores, em áreas como Liderança, Marketing e Gestão. Em 2007 estreou-se na escrita, sendo o seu livro mais recente “Saiam da Frente!”, sobre os protagonistas das três bancarrotas sofridas por Portugal que continuam no poder.