O negócio é estar ‘ahead of the game’ em vez de fazer a mesma coisa – Camilo Lourenço

O negócio é estar ‘ahead of the game’ em vez de fazer a mesma coisa – Camilo Lourenço

Quando dirigia publicações de economia e negócios, havia uma coisa que me fascinava: a procura do elixir do sucesso. Eu explico... Vivíamos obcecados com a fórmula para se atingir a excelência nos negócios. Ele era "a melhor empresa", "o melhor CEO", "o melhor empreendedor", "o melhor gestor"...

No fundo, o que nós queríamos era explicar ao leitor que a fórmula do sucesso é replicável. Bastava apenas que o leitor seguisse o guião que o jornalista transmitia no artigo (ou na entrevista), que retratava uma de duas situações: ou a experiência de alguém com "track record" de sucesso em determinada área (um empreendedor, um gestor, um empresário...), ou o conselho de algum sábio consultor.

Durante alguns anos, esta aposta na fórmula do sucesso fez escola no jornalismo de negócios. De tal forma que o fenómeno, que tinha começado nas revistas, rapidamente se alastrou aos jornais especializados: dos pioneiros ("Exame", "Executive Digest"), passámos a jornais como o "Diário Económico" e o "Jornal de Negócios", e mesmo aos suplementos de economia dos jornais generalistas.

Mas, como sempre acontece no mundo da economia, o excesso de oferta desvaloriza o produto. Há alguns anos, um empreendedor de sucesso, a propósito deste fenómeno, dizia-me: "Oh Camilo, se é assim tão fácil replicar a fórmula, e se vocês vendem tantas revistas, por que é que não temos uma invasão de gente de sucesso?".  

Não dei muita importância à crítica. Fiz mal. O que a pessoa em causa me estava a dizer é que estávamos a cometer dois erros: demasiado foco na tecla 'how to' e pouca atenção a um aspecto mais importante: "who can do it... and why". 

Ou seja, as publicações de negócios estavam a exagerar na dose "o-sucesso-é-fácil-e-toda-a-gente-pode-lá-chegar", esquecendo-se que há outros requisitos que contam mais. Talvez isso explique a desvalorização desta temática nos últimos anos. Não que as publicações tenham deixado de tratar o assunto, mas o interesse que ele suscita diminuiu. 

Há dias, reencontrei o autor da crítica que desvalorizara há anos e elogiei a sua capacidade de antecipar a mudança. Na conversa que se seguiu ouvi uma nova sugestão: "Camilo, já reparou que passados 15 anos, vocês (jornalistas) continuam a falar no 'how to'? Não vos ocorre analisar os exemplos de sucesso que andaram a vender e ver o que lhes aconteceu? Experimentem analisar, nos fracassos, o que correu mal; e, nos sucessos, o que permitiu às empresas darem o salto em frente". 

Foi um directo de direita, como se diz no box. E, no chão, quando me tentava levantar, levei o segundo: "O negócio é estar 'ahead of the game’. No jornalismo, como em outras áreas da economia, anda muita gente a fazer a mesma coisa. Não há diferenciação". Bingo!

 


Camilo-Lourenco-colunaCamilo Lourenço é licenciado em Direito Económico pela Universidade de Lisboa. Passou ainda pela Universidade de Columbia, em Nova Iorque e University of Michigan, onde fez uma especialização em jornalismo financeiro. Passou também pela Universidade Católica Portuguesa. Comentador de assuntos económicos e financeiros em vários canais de televisão generalista, é também docente universitário. Em 2010, por solicitação de várias entidades (portuguesas e multinacionais), começou a fazer palestras de formação, dirigidas aos quadros médios e superiores, em áreas como Liderança, Marketing e Gestão. Em 2007 estreou-se na escrita, sendo o seu livro mais recente “Saiam da Frente!”, sobre os protagonistas das três bancarrotas sofridas por Portugal que continuam no poder.