E disse: "The chairman has died”, "O PCA morreu" – Camilo Lourenço

E disse: "The chairman has died”, "O PCA morreu" – Camilo Lourenço

“The chairman has died”. As palavras são de Ana Patricia Botín, filha de Emílio Botín, quando comunicou aos restantes membros do board do Santander Londres (que ela dirigia), a morte do líder.

O que se seguiu foi tudo menos habitual: uma reunião de emergência do board da casa-mãe, em Madrid, onde ficou decidida a ascensão imediata de Ana Patricia para o cargo até então ocupado pelo pai: “In these difficult times for me and my family, I appreciate the trust of the board of directors and I am fully committed to my new responsibilities”(1).

Só depois destes procedimentos profissionais, Patricia Botín virou agulhas para se dedicar à parte afectiva: o recolhimento familiar e a preparação do funeral do pai. 

Quem acompanhou de perto os acontecimentos, não pôde deixar de reparar na espantosa separação entre a parte afectiva e a parte profissional de Patricia (a única de seis filhos que Botín percebeu, desde cedo, ser capaz de lhe suceder): primeiro o trabalho, depois a família. 

Como explicar o que se passou? A explicação não está em qualquer má relação entre Patricia e o pai. Os dois eram, de facto, próximos. Mas era uma proximidade sui generis: Botín nunca facilitou a vida a Ana, naquilo que o "Financial Times", ao analisou a sucessão no Santander, chamou de "tough love".

Esse "tough love" manifestava-se de várias formas. Por exemplo, Botín instilou sempre na filha a ideia de que era fundamental separar a família dos negócios. E obrigou-a a ganhar as esporas, tendo passado por vários cargos no grupo. Mas a mais importante manifestação desse sentimento (ou será estratégia?), foi a forma como Botín "prejudicou" Patricia aquando da fusão com o Central Hispano: afastou-a das operações em Espanha para não hostilizar os accionistas do BCH, preocupados com demasiada influência dos Botín na gestão do Santander.

Mas isso não impediu Patricia de continuar a crescer no grupo. Em vez de desmoralizar, encarou a “despromoção” como um desafio. E aos poucos foi-se posicionando como a sucessora natural de Botín, à semelhança do que sucedera com seu pai 37 anos antes, quando chegou a vez deste suceder ao seu avô. Dois anos depois da fusão, Patricia estava de volta, afirmando-se cada vez mais como a sucessora natural do patriarca. 

Voltaria a sair de Espanha para dirigir as operações em Inglaterra, quando António Osório abandonou o grupo para dirigir o Lloyd's. Foi nessas funções, que vinha a desempenhar com brilho, que a História foi ter com ela, na forma de Emilio Botín.

Os livros de Gestão dizem-nos que há muitas formas de criar sucessores nas empresas. Não conheço muitas como a que Botín implementou no seu grupo. Tiro-lhe o chapéu!

(1) Nestes tempos difíceis para mim e para a minha família, agradeço a confiança do conselho de administração e estou completamente comprometida com as minhas novas responsabilidades.

 


Camilo-Lourenco-colunaCamilo Lourenço é licenciado em Direito Económico pela Universidade de Lisboa. Passou ainda pela Universidade de Columbia, em Nova Iorque e University of Michigan, onde fez uma especialização em jornalismo financeiro. Passou também pela Universidade Católica Portuguesa. Comentador de assuntos económicos e financeiros em vários canais de televisão generalista, é também docente universitário. Em 2010, por solicitação de várias entidades (portuguesas e multinacionais), começou a fazer palestras de formação, dirigidas aos quadros médios e superiores, em áreas como Liderança, Marketing e Gestão. Em 2007 estreou-se na escrita, sendo o seu livro mais recente “Saiam da Frente!”, sobre os protagonistas das três bancarrotas sofridas por Portugal que continuam no poder.