Qual a estratégia de Portugal para os próximos 10 anos? – Camilo Lourenço

Qual a estratégia de Portugal para os próximos 10 anos? – Camilo Lourenço

Já aqui uma vez escrevi que de vez em quando vale a pena descer da “Teoria Geral da Gestão” para o concreto. Foi o que fizemos na semana passada, com a transição de Poder no grupo Santander. E é o que fazemos esta semana com um assunto nacional: que estratégia tem Portugal para os próximos 10 anos?

Você, que nos está a ler, tem alguma ideia de onde o país quer estar daqui a uma década? Temos algum ponto de referência? Queremos emular a Irlanda? A Bélgica? Singapura? 

A resposta é: nenhuma. Nenhum partido a discute e a Presidência limita-se a propor acordos de regime que nunca saem do papel. E no entanto o país está atolado em desafios de longo prazo: como reduzir a dívida para níveis toleráveis? Como fazer uma efectiva reforma do mercado de trabalho? Como tornar a Administração Pública um enabler, e não um passivo, para a modernização da economia? Como reformar a Educação? 

Até um néscio percebe que nenhum destes desafios pode ser resolvido em 4, 5 ou mesmo 6 anos. Ou seja, não é trabalho para uma legislatura. Como se viu na que termina este ano: nenhum dos problemas acima referidos ficou inteiramente resolvido. Quando muito, houve meios avanços em algumas áreas, como a laboral. Na Administração Pública, por exemplo, não aconteceu nada: limitámo-nos a cortar despesa de forma transversal; não se mexeu nas carreiras nem na avaliação, dois dos problemas mais graves do sector público. 

O que é mais grave nesta ausência de referências futuras é o facto de termos passado por um duríssimo programa de ajustamento, que previa uma implementação rigorosa de reformas, que não foi inteiramente cumprido. É caso para perguntar: se nem com imposição externa cumprimos os objectivos fixados, como acreditar que o faremos sem memoranduns de entendimento?

Talvez acrescentando outro elemento à habitual (e estafada) conversa sobre pactos de regime: a fixação de metas. É preciso que os portugueses se ponham de acordo em relação a onde e como querem estar em 2020. Com indicadores concretos. Por exemplo, nessa data onde queremos que esteja o nosso rendimento face à média da União? Qual a percentagem das exportações em percentagem do PIB? Quais os indicadores de Educação queremos ter? Qual o nível de despesa, em percentagem da riqueza nacional, para 2020? 

Um dos erros dos últimos três anos foi o facto de as lideranças não terem sabido instilar confiança no futuro, como “prémio” para os sacrifícios. O ajustamento era inevitável, já o sabemos. Mas era preciso ter ido mais longe, dizendo aos portugueses que, apesar de ele ser inevitável, dali a cinco anos os sacrifícios dariam fruto. É elementar: ninguém ganha guerras prometendo apenas sacrifícios. É preciso explicar como estas contribuem para um futuro dourado… depois de vencidas as batalhas. Ainda vamos a tempo!

 


Camilo-Lourenco-colunaCamilo Lourenço é licenciado em Direito Económico pela Universidade de Lisboa. Passou ainda pela Universidade de Columbia, em Nova Iorque e University of Michigan, onde fez uma especialização em jornalismo financeiro. Passou também pela Universidade Católica Portuguesa. Comentador de assuntos económicos e financeiros em vários canais de televisão generalista, é também docente universitário. Em 2010, por solicitação de várias entidades (portuguesas e multinacionais), começou a fazer palestras de formação, dirigidas aos quadros médios e superiores, em áreas como Liderança, Marketing e Gestão. Em 2007 estreou-se na escrita, sendo o seu livro mais recente “Saiam da Frente!”, sobre os protagonistas das três bancarrotas sofridas por Portugal que continuam no poder.