O futuro do corporate Portugal é risonho – Camilo Lourenço

O futuro do corporate Portugal é risonho – Camilo Lourenço

Esta semana tive uma das maiores antevisões do que vai ser o futuro de Portugal (empresarialmente falando). No “Caixa Empreender”, iniciativa da Caixa Capital para promover o empreendedorismo em Portugal.

Houve dois pormenores no evento (disclosure – fui o “host” da cerimónia) que me surpreenderam: a qualidade dos projectos e o facto de todos terem nascido com os olhos postos nos mercados externos. Para além do facto de a Caixa Capital ter conseguido juntar em Portugal seis representantes de investidores internacionais relevantes no mercado das start-up.

Voltando aos projectos, de vários sectores (desde o health care às tecnologias de informação, passando pela economia do mar), o profissionalismo da gestão e a qualidade dos modelos de negócio foram uma surpresa. Como explicar? Tenho para mim que o elemento decisivo é a composição das equipas de gestão: gente nova, com formação diversa (engenheiros físicos, engenheiros mecânicos, MBA, médicos…), bom domínio da língua dos negócios (inglês) e com ambição para conquistar o mundo.

Tudo isto significa que os sete projectos que se “venderam” aos investidores, vão atingir a maturidade e transformarem-se em projectos de sucesso, com implantação internacional? Não. O mundo das empresas assemelha-se aos das tartarugas quando nascem: só uma de cada dez que saem dos ninhos de incubação chega à idade adulta. 

Mas isso não é o mais importante aqui. Importante é perceber que estes projectos começam a mostrar uma nova mentalidade em Portugal:

  1. Há cada vez mais pessoas a quererem ser donas do seu futuro, terem o seu próprio negócio (como dizia o business angel Sérvulo Rodrigues, “há 15 anos quando falava nas universidades pouco mais de 10% dos alunos falava em criar empresas; agora é a maioria”);
  2. Os projectos revelam um profissionalismo que impressiona;
  3. Os negócios são maioritariamente pensados para uma escala global;
  4. Ninguém fala em subsídios ou ”ajudas”. Todos tentam recolher funding com base no mérito dos projectos.
 

Mas o “Caixa Empreender” não serviu apenas para mostrar que estamos mais virados para o exterior; mostrou que há cada vez mais empreendedores internacionais a escolher Portugal para “acelerar” e “incubar” projectos. Sinal de que a presença constante do país nos principais e mais influentes meios de comunicação mundial começa a dar frutos. Alô AICEP…!

P.S. - Na mesa-redonda, que reuniu investidores internacionais, um deles gracejou: “Estou surpreendido com a modéstia dos empreendedores: vêm aqui pedir 100 mil euros, 200 mil euros… Lá fora, em projectos semelhantes, pedem um milhão, dois milhões…”. Parecia uma brincadeira, mas não é: nós, portugueses, somos assim. Quando falamos para estrangeiros somos modestos. A modéstia é um bom princípio de vida; mas não se pode exagerar. Senão passamos a imagem de pouca ambição… E a verdade é que alguns dos projectos que por ali passaram podem ser casos sérios de sucesso em qualquer parte do mundo.

 


Camilo-Lourenco-colunaCamilo Lourenço é licenciado em Direito Económico pela Universidade de Lisboa. Passou ainda pela Universidade de Columbia, em Nova Iorque e University of Michigan, onde fez uma especialização em jornalismo financeiro. Passou também pela Universidade Católica Portuguesa. Comentador de assuntos económicos e financeiros em vários canais de televisão generalista, é também docente universitário. Em 2010, por solicitação de várias entidades (portuguesas e multinacionais), começou a fazer palestras de formação, dirigidas aos quadros médios e superiores, em áreas como Liderança, Marketing e Gestão. Em 2007 estreou-se na escrita, sendo o seu livro mais recente “Saiam da Frente!”, sobre os protagonistas das três bancarrotas sofridas por Portugal que continuam no poder.