Porque o “business friendly” não é uma prioridade – Camilo Lourenço

Porque o “business friendly” não é uma prioridade – Camilo Lourenço

Nesta semana, o governo francês foi obrigado a recorrer a decreto governamental para assegurar que um conjunto de medidas pró-negócios não eram chumbadas no parlamento. Entre elas, algumas iniciativas que não são propriamente revolucionárias (v.g. a liberalização da abertura de lojas ao domingo e a liberalização do notariado). Como dizia um analista ao “Financial Times” de 4ª feira, estas medidas vigoram há décadas do outro lado do canal da Mancha…

Este tema, o da desconfiança quase visceral dos europeus face às empresas, é fascinante. Tentei abordá-lo na minha coluna do “Jornal de Negócios”, mas a análise ficou incompleta. Daí voltar ao tema no “Portal da Liderança”. De onde surge esta oposição, que não é exclusiva de França? Veja, por exemplo, as manifestações de rua em Espanha, Portugal, Itália e Grécia, contra a implementação de reformas estruturais, nos últimos anos. 

Os leitores atentos estarão agora a dizer que o problema não é exclusivo do sul. Até há poucos anos, os “department stores” não abriam na Alemanha ao domingo… É verdade: nestas coisas de ambiente “pró-negócios”, não há virgens na Europa. Mas há diferenças profundas entre o centro, norte e até o leste da Europa e o sul do continente. Quanto mais se desce na latitude, maior a desconfiança dos cidadãos face às empresas.

Não é nada fácil encontrar explicações para este fenómeno. Dir-se-ia que uma parte dos cidadãos europeus olham para as empresas como um inimigo a abater; ou como algo que deve ser tolerado… mas não estimulado (no sentido de ajudado).

Estou convencido de que este sentimento anti-empresarial é um dos principais responsáveis pela falta de produtividade europeia, que se traduz em taxas de desemprego elevadíssimas em alguns países. Nomeadamente no sul… 

Tome-se o exemplo, novamente, da França. O governo de Manuel Valls, que parece empenhado em eliminar os obstáculos que tolhem o desenvolvimento do país, já prometeu que as reformas não vão ficar por aqui. O próximo alvo é alterar uma lei que agrava as obrigações que as empresas têm de respeitar, quando o número de trabalhadores ultrapassa os 49 (por exemplo, a obrigatoriedade de estarem representados na gestão).

A lei foi pensada, como boa parte das leis, com boa intenção: o Estado acha que, quanto mais legislar no sentido de tolher a liberdade das empresas, mais protegidos ficam os trabalhadores. O resultado é exactamente o oposto: não será por causa desta lei que o número de empresas com menos de 49 trabalhadores é o dobro das que têm mais de 50? Dito por outras palavras, a lei cria um incentivo perverso: tolhe o aparecimento de grandes empresas, com o que isso tem de limitativo, do ponto de vista das economias de escala e capacidade competitiva em mercados globais…

Não sei se haverá fórmulas mágicas para dar a volta ao problema. Mas que é urgente passar a olhar para as empresas com outros olhos, é. São elas, e não o Estado, que criam postos de trabalho. Porque criam valor para a economia. Ora cercear essa criação de valor é capaz de não ser grande ideia…

O que fazer, então? Talvez começar a ensinar às crianças, logo na escola básica, o que são as empresas e o que estas representam para a sociedade. Dizendo-lhes que, não obstante o esforço de moralização do mercado, haverá sempre prevaricadores (as que procuram o lucro a qualquer preço, não se preocupando com as famílias)… mas que não são a norma. Talvez o “milagre” que a Europa precisa comece aí. 

 


Camilo-Lourenco-colunaCamilo Lourenço é licenciado em Direito Económico pela Universidade de Lisboa. Passou ainda pela Universidade de Columbia, em Nova Iorque e University of Michigan, onde fez uma especialização em jornalismo financeiro. Passou também pela Universidade Católica Portuguesa. Comentador de assuntos económicos e financeiros em vários canais de televisão generalista, é também docente universitário. Em 2010, por solicitação de várias entidades (portuguesas e multinacionais), começou a fazer palestras de formação, dirigidas aos quadros médios e superiores, em áreas como Liderança, Marketing e Gestão. Em 2007 estreou-se na escrita, sendo o seu livro mais recente “Saiam da Frente!”, sobre os protagonistas das três bancarrotas sofridas por Portugal que continuam no poder.