O grande falhanço de Belmiro: a internacionalização da Sonae – Camilo Lourenço

O grande falhanço de Belmiro: a internacionalização da Sonae – Camilo Lourenço

Belmiro de Azevedo vai deixar a administração da Sonae para se dedicar a coisas como a educação, a agricultura e o agro-alimentar, ficámos a saber esta semana. Pelo próprio. Como não é todos os dias que vemos um líder abandonar uma empresa ao fim de 50 anos, vale a pena dedicar a Belmiro o artigo desta semana. Para fazer um balanço da sua actividade à frente do grupo.

Não, não vou fazer aqui uma análise pormenorizada dos 50 anos em que dirigiu a Sonae, desde que lá chegou (em 1965) e quando ainda dominada pela família Pinto de Magalhães. Mas vale a pena analisar alguns dos factos mais relevantes desses 50 anos. O primeiro é que o grupo é substancialmente diferente daquele que Belmiro herdou: tornou-se um gigante na distribuição, entrou em sectores como as telecomunicações, tornou-se um especialista na gestão de superfícies comerciais (onde até dá cartas fora de portas) e revelou-se uma escola de gestores (caro leitor, retenha que falei em “gestores” e não em “líderes” – assunto a que voltaremos noutro artigo). E essa transformação deve-se essencialmente a Belmiro.

Só que os últimos 50 anos não foram apenas sucessos. E, em alguns casos, os insucessos foram… grandes insucessos. No discurso onde anunciou a saída, Belmiro falou na Sonae Indústria (nunca entendi porque insistiu tanto em manter-se no sector), no falhanço da OPA à Portugal Telecom, no fracasso da tentativa de controlo da Portucel e no insucesso da internacionalização no Brasil. É tudo verdade. Mas eu realçaria um dos pontos que Belmiro mencionou para centrar a análise de hoje.

De todos os falhanços de que falou, julgo que o maior foi a incapacidade em dar o salto para o exterior. E o caso PT só reforça essa conclusão: recorde-se que a Sonae anunciou que, se conseguisse controlar a PT, venderia o negócio móvel no Brasil (que revelou, na altura, valer cerca de dois mil milhões de euros). Ora, isso não era mais do que centrar a actividade da PT em Portugal. Ou seja, Belmiro assumia com esse gesto a dificuldade em gerir fora de fronteiras. E, para uma companhia que considera ser “efectivamente a maior e mais importante ‘long-living’ company da História portuguesa’”, isto é uma severa limitação. Porque qualquer empresa que reclame essa longevidade tem de ter uma forte presença no exterior. Ou seja, o fracasso do controlo da PT foi um duplo fracasso: não a comprou e, se a tivesse comprado, dar-lhe uma dimensão meramente nacional. 

A prova de que a internacionalização é o calcanhar de Aquiles da Sonae surgiu já depois de Belmiro ter abandonado a presidência executiva, cedendo-a ao seu filho, em 2007. Paulo Azevedo, percebendo a urgência na internacionalização, tentou entrar em Angola, mediante um acordo com Isabel dos Santos (não muito bem explicado). O problema é que, como se percebe ao fim de três anos, esta iniciativa revela-se um novo fracasso. Não só não se vê nada de peso da Sonae em Angola (em contraponto à expansão das superfícies comerciais “Kero”, propriedade de um dos generais do regime), como os seus quadros de topo, no país, estão a abandonar a empresa para se juntar a grupos concorrentes. 

Não quero com isto dizer que a Sonae não tem feito algumas apostas certas no exterior. Como se vê pelo sucesso da Sonae Sierra. Mas isso não chega para se dizer que percebeu, e ganhou, a aposta na internacionalização. Esta é muito mais do que levar as lojas Worten para Espanha e expandir a marca “Zippy” por outras geografias… E suspeito que ou a Sonae percebe rapidamente isso, ou a história da “long living company da História portuguesa” vai conhecer um sério “setback”.

 


Camilo-Lourenco-colunaCamilo Lourenço é licenciado em Direito Económico pela Universidade de Lisboa. Passou ainda pela Universidade de Columbia, em Nova Iorque e University of Michigan, onde fez uma especialização em jornalismo financeiro. Passou também pela Universidade Católica Portuguesa. Comentador de assuntos económicos e financeiros em vários canais de televisão generalista, é também docente universitário. Em 2010, por solicitação de várias entidades (portuguesas e multinacionais), começou a fazer palestras de formação, dirigidas aos quadros médios e superiores, em áreas como Liderança, Marketing e Gestão. Em 2007 estreou-se na escrita, sendo o seu livro mais recente “Saiam da Frente!”, sobre os protagonistas das três bancarrotas sofridas por Portugal que continuam no poder.