O Paradoxo da Austeridade – Carlos Oliveira

O Paradoxo da Austeridade – Carlos Oliveira

O debate sobre a austeridade encerra um grande paradoxo. 

A austeridade é muitas vezes apresentada como um modelo económico voluntário, condenado por uns e desejado por outros. Os que condenam a austeridade evocam os custos sociais e os prejuízos económicos causados pela falta de investimento. Por outro lado, quem aplica medidas de austeridade emerge como não tendo sensibilidade social e como alguém que aplica voluntariamente medidas económicas pró-cíclicas, agravando assim o problema.

Causas Alheias

Acontece que a austeridade não é um modelo económico voluntário, mas sim uma ressaca, uma consequência indesejada, de um modelo económico precedente que falhou. Nomeadamente, de dívida excessiva, que resulta do duplo défice da balança de pagamentos e do Estado, que por sua vez resultam de baixa produtividade e competitividade, do desequilíbrio do investimento social vs. produtivo e de uma cultura política tacticista, que gasta o que o país não tem, por forma a ganhar eleições e a favorecer interesses de clã e de grupos económicos amigos em detrimento do mérito económico.

A Ressaca e o Paradoxo

Ninguém gosta de estar ressacado, muito menos quem está viciado em privilégios ou os mais pobres e desprotegidos da sociedade, que apanham injustamente por tabela. Neste contexto, quem surge a denunciar as consequências da austeridade e a defender mais despesa, ou menos cortes, para aliviar o sofrimento social e promover o crescimento económico, ganha facilmente popularidade. 

Acontece que, em situações de dívida excessiva, mais despesa e mais investimento vão agravar a insustentabilidade da dívida. É como um viciado em droga. Mais droga (mais dívida) parece ser o caminho mais fácil e, no momento de crise, o de maior felicidade, para evitar as ressacas, que se tornam cada vez piores e mais aterradoras.

É assim evidente o paradoxo. Quem aparenta defender a austeridade é quem está de facto a trabalhar em condições adversas e precárias, sem recursos, sem apoio social e com imposição externa dos credores, para criar as condições para não haver mais austeridade. Quem aparenta lutar contra a austeridade é quem mais promove as condições para haver precisamente mais e mais austeridade e, eventualmente, para o colapso do estado social.

A Casa de Palha e a Ventania

O paradoxo funciona em termos externos também. 

A culpabilização externa é popular. Quem constrói casas de palha em vez de tijolo, vai sempre culpar a ventania. O apelo à nossa autoestima, à negação da nossa humilhação pelos credores, ao sentimento de revolta pelas imposições externas, é popular, apela ao lado emocional do cérebro que se sobrepõe ao lado racional, mas só agrava a desconfiança e o receio de quem emprestou e empresta dinheiro, e que, em resultado, mais aperta as suas exigências.

Mais uma vez o paradoxo. Quem aparenta fazer frente ao poder externo é quem mais agrava os problemas e a dependência externa. Quem assume responsabilidades internas, perdendo popularidade, é quem ganha mais confiança externa, mais concessões e colaboração e assim é quem mais reduz a dependência de imposições externas.

Por este motivo é tão difícil sair do paradoxo da austeridade. Não por condicionantes técnicas, mas por condicionantes políticas.

 


CMO-PLCarlos Miguel Valleré Oliveira é CEO da Leadership Business Consulting, empresa internacional de consultoria de gestão presente em 8 países, África do Sul, Angola, Brasil, Cabo Verde, Estados Unidos da América, Espanha, Moçambique e Portugal. Assina quinzenalmente a rubrica "Ponto de Vista" no Portal da Liderança sobre os temas da liderança-gestão, economia-sociedade e inovação-empreendedorismo. Mais informações aqui.