A Chave: Quem São Estes Líderes Gregos? – Carlos Oliveira

A Chave: Quem São Estes Líderes Gregos? – Carlos Oliveira

O caso grego é complexo e, por isso, necessita de líderes de primeira liga, inteligentes nas soluções e nos relacionamentos, pragmáticos na abordagem, ponderados nas decisões, responsáveis pelos resultados, capazes de construirem pontes de confiança e de mobilizarem o seu povo em prol dos caminhos corretos, mesmo os mais difíceis. Especialmente do lado da Grécia. 

Quem São Estes Líderes Gregos?

Quem são estes líderes gregos que parecem estar a puxar a Grécia para o abismo económico, social e financeiro, a enfraquecer o euro e a coesão europeia e a promover o crescimento do eleitorado europeu de extrema-direita, o que vai dificultar a coesão europeia no futuro? 

Inconscientes? Conscientes, mas impreparados? Revolucionários-soft apostados em desafiar o modelo europeu e o sistema capitalista internacional? Um bocado disto tudo? O falhanço das negociações é resultado de inépcia e do bluff irresponsável ou de um plano objetivo de desafio ao modelo europeu e de justificação para uma saída das amarras europeias para obter maior poder e discricionariedade a nível nacional?

Uma coisa é certa, os erros de liderança acontecem uns atrás dos outros, desde o primeiro dia (ver artigo), e os valores que os líderes gregos professam não parecem estar alinhados com os valores que animaram a União Europeia nas últimas décadas (ver artigo).

Estes líderes gregos encarnam um estilo de liderança ultrapassado e de resultados políticos e empresariais nefastos no passado. O estilo do líder heroico, vanguardista, narcisista, egocêntrico, cujas decisões e razões iluminadas e moralmente superiores estão acima dos resultados e das consequências para as pessoas e para as instituições que servem. 

Não se trata de uma questão de esquerda ou de direita, mas sim de que tipo de esquerda e de direita. Apesar de liderado pelo Siryza, este governo é composto por uma coligação de partidos de extrema-direita e de extrema-esquerda, que têm em comum um património soberanista antieuropeu e populista.

Não se percebe se os líderes gregos tinham condições para negociar verdadeiramente ou se alguma vez quiseram chegar a um acordo. Ser eleito com a promessa populista de mandar no dinheiro dos outros é uma alucinação, um ato consciente mas desesperado, ou uma missão ideológica assumida com consciência e convicção?

Um Cavalo de Tróia Dentro da Europa

Estes líderes gregos professam uma superioridade moral e uma legitimidade democrática superior à dos outros líderes europeus e “vêm salvar o modelo económico europeu”. Esta visão heroica da liderança e de si próprios conduz ao desastre, por estrutura da própria equação. O projeto europeu implica partilha de poderes e a lei europeia sobrepõe-se à lei nacional. O discurso soberanista, em que encalharam os líderes gregos é assim um beco sem saída, dentro da União Europeia e do Euro. A democracia de cada país da União exerce-se dentro de uma conjunto de regras e de obrigações que têm de ser respeitadas por todos. De outra forma o projeto europeu colapsa. 

O desastre económico e a crise social são o caldo em que floresce este tipo de liderança, que se apresenta como heroico defensor da honra de um povo vitimizado. A narrativa do combate heroico do pequeno país democrático humilhado a lutar contra poderes ilegítimos, é poderosa em termos emocionais no terreno nacional, mas também fecha as portas para a própria Europa poder ajudar os gregos e a si própria, pois não lhe interessa abrir a caixa de pandora da saída da Grécia, com as implicações geopolíticas adversas, o foco de instabilidade social e o rancor histórico em relação à Europa que daí adviria.

Mesmo que se chegue a um acordo in extremis, a confiança sobre o seu cumprimento será baixa e novas roturas se avistarão no horizonte. Ou haverá conversão dos líderes gregos a uma nova realidade e uma traição às suas raízes? Sempre possível, mas muito pouco provável.

Nada vai ser igual na Europa. Entramos em terreno desconhecido. E o problema fundamental que é a reforma do disfuncional Estado grego e o aumento da competitividade económica não é endereçado por ninguém.

Como é que isto aconteceu?

Só um conjunto muito raro de circunstâncias proporcionou a oportunidade destas pessoas ascenderem ao poder. Um povo desesperado tenta tudo. Já vimos isso no passado.

Estes líderes gregos não têm preparação para governar e os seus valores divergem do resto da Europa, das regras partilhadas e respeitadas solidariamente por todos. O seu futuro histórico está traçado, mas com consequências nefastas enormes para os gregos e algumas para a Europa, e talvez mesmo para os portugueses. Quanto dano vão causar até os gregos acordarem e os tirarem de cena e quanto vai a Europa ter de pagar e por quanto tempo para reequilibrar a situação económica, social e geopolítica são grande incógnitas.

Conclusão

Tanto na política, como no mundo empresarial, apostar em líderes não testados é uma aventura de custos potencialmente elevados, especialmente líderes de retórica fácil e iluminados por uma superioridade moral e por um idealismo e autoconvencimento que os coloca acima do pragmatismo e da realidade objetiva e das consequências para as pessoas.

A comunicação social motivada por interesses mercantis associados ao cenário de crise, jornalistas institucionais presos nas suas narrativas ideológicas, o politicamente correto, a academia bem-falante e o discurso antissistema de denúncia e de indignação, captam e geram audiências e simpatias, mas não geram sentido de responsabilidade e da realidade nos cidadãos. Promovem egos e políticos populistas, sem qualquer capacidade de liderança efetiva, erodem o sistema partidário em vez de o reformar e enfraquecem os líderes políticos pragmáticos, focados em resultados concretos para os eleitores. 

Uma das chaves para resolver o imbróglio grego é encontrar e apoiar os líderes gregos à altura para os próximos episódios, que serão extremamente difíceis. Um desafio para o povo grego, pois essa responsabilidade e as suas consequências só lhe cabem a ele. 

Há esperança, porque este agudizar em direção ao precipício aconteceu quando a Grécia já estava, finalmente, a sair da prolongada e dolorosa crise. Há que retomar o caminho, fazendo as correções do que correu mal no passado, na fórmula inicial e nestes dramáticos cinco meses.

 


CMO-PLCarlos Miguel Valleré Oliveira é CEO da Leadership Business Consulting, empresa internacional de consultoria de gestão presente em 8 países, África do Sul, Angola, Brasil, Cabo Verde, Estados Unidos da América, Espanha, Moçambique e Portugal. Assina quinzenalmente a rubrica "Ponto de Vista" no Portal da Liderança sobre os temas da liderança-gestão, economia-sociedade e inovação-empreendedorismo. Mais informações aqui.