Ciclo de compromisso e de esperança

Ciclo de compromisso e de esperança
Após estas eleições legislativas, a nova marca das lideranças necessárias em Portugal – políticas, sociais e empresariais – é o compromisso e a moderação. 
 

Carlos Oliveira 

Só a prática do compromisso pode dar esperança a Portugal, num contexto mundial e europeu marcado pela elevada competitividade global, modelos sociais e económicos em rápida transformação devido às novas tecnologias, crises geopolíticas prolongadas e uma política europeia crescentemente mais exigente e integrada com as políticas nacionais.

Perante a ausência de uma maioria absoluta, as tentações de instabilidade são fortes. Neste contexto, a maturidade das lideranças políticas será fundamental, pois o foco no ganho partidário de curto prazo poderá ter consequências nefastas para o país que podem ser de longo prazo.

Um novo tempo para Portugal 

Os partidos do consenso governativo e europeu obtiveram 70% dos votos expressos. Com compromisso e maturidade, Portugal pode entrar num novo ciclo político em resultado dos votos expressos nas eleições legislativas e dos discursos positivos dos líderes da Coligação e do PS na noite eleitoral. Com estas eleições, simbolicamente, acabou definitivamente a emergência nacional e deve acabar a predominância do autolimitador discurso político e social da crise. 

Este novo ciclo político de compromisso deve garantir estabilidade e estar focado nas políticas de crescimento e do emprego, de aumento da competitividade e da produtividade fundamentais para a autonomia nacional e para a redução da dívida, e na criação de condições de viabilidade do Estado social, sempre dentro da indispensável disciplina orçamental. 

Modernidade e governabilidade em vez de esquerda-direita 

Não haja dúvidas: no atual contexto europeu e mundial, o país só é viável se for governado ao centro, dentro dos consensos europeus, isto é, por cada um dos partidos do “arco da governação”, PS, PSD e CDS, ou coligações destes. Qualquer deriva deste modelo acabará em desastre. Mais importante que o combate ideológico esquerda-direita que dominou a legislatura que agora acaba é o combate entre dois modelos: consenso europeu vs. desafio antissistema; economia social de mercado vs. economia estatizante; pluralismo democrático vs. cultura de protesto e de pressão social da rua. 

Na noite eleitoral, o líder do PS fez bem em rejeitar a coligação negativa com a esquerda radical (o que é bem diferente de uma coligação positiva de Governo). Os líderes da Coligação fizeram bem em salientar que precisam de negociar as soluções de futuro com o PS. 

Compromisso e esperança 

A Coligação tem de ajustar o seu programa e dialogar mais com o PS, para maior estabilização social e económica do país e por próprio interesse, para reganhar o centro que lhe faltou para a maioria parlamentar. O PS tem de mover ao centro e ajustar o seu discurso para não levar o país para a ingovernabilidade ou para uma deriva política radical, e também por interesse próprio, para não continuar a alimentar o Bloco de Esquerda (BE) como o fez durante a campanha eleitoral. O resultado decorreu, em grande medida, do facto de o PS ter alimentado até ao dia da eleição a ficção de que poderia fazer uma aliança com a esquerda radical e antissistema, o que lhe fez perder votos ao centro e à esquerda (dando-lhes credibilidade e a ilusão de que votar no BE seria mais do que um voto de protesto).

Modelo win-win 

No modelo marcadamente ideológico que pontuou a legislatura que agora termina, de confronto político desagregador em termos sociais, Portugal perdia independentemente do partido que ganhasse os combates políticos.

Na nova era do compromisso, pós-legislativas, Portugal ganha sempre, independentemente do partido que ganhar o desafio do compromisso. 

Políticos, forças sociais, empresários e cidadãos devem pois promover o compromisso que alimenta a esperança de um futuro positivo para Portugal.

05-10-2015

 


CMO-PLCarlos Miguel Valleré Oliveira é CEO da Leadership Business Consulting, empresa internacional de consultoria de gestão presente em oito países, África do Sul, Angola, Brasil, Cabo Verde, EUA, Espanha, Moçambique e Portugal. Assina quinzenalmente a rubrica "Ponto de Vista" no Portal da Liderança sobre os temas da liderança-gestão, economia-sociedade e inovação-empreendedorismo. Mais informações aqui.