Nem esquerda, nem direita. Em frente

Nem esquerda, nem direita. Em frente


Novembro de 2015. A política portuguesa deixou-se aprisionar nas grilhetas esquerda-direita, e tornou-se demasiado agressiva, litigante, desrespeitadora e feia.


Carlos Oliveira

Se os líderes políticos e sociais e os agentes da comunicação social não introduzirem uma boa dose de serenidade, de respeito, de foco nos assuntos que interessam verdadeiramente ao país, a qualidade de vida de todos nós irá degradar-se. É preciso libertar o país destas grilhetas. Rapidamente. Somos todos melhores que isto.



Uma situação triste e feia
Os debates “esquerda versus direita” na Assembleia da República, na televisão e em todo o discurso político dominante são intelectualmente redutores, ilustrativos de imaturidade e não são indutores da mobilização nacional.

É natural haver alguma tensão no debate político, devido às crenças fortes, à paixão pelo bem público, mas quando se ultrapassa um certo limite, ficamos todos a perder, como numa discussão entre passageiros de uma mesma barcaça que acabam por a destruir devido a lutas entre eles, afundando-se todos. Estamos todos no mesmo barco, somos todos portugueses e, por isso, a agressividade – e, por vezes o ódio – que trespassa do atual debate político, é triste e não abona muito a favor de quem o promove.


A relevância relativa do referencial esquerda-direita
O maniqueísmo esquerda-direita – tudo o que “nós” dizemos e fazemos é correto e honesto, tudo o que “eles” dizem e fazem é incorreto e desonesto – deveria embaraçar (e não orgulhar) quem o assume como o princípio e o fim do seu pensamento, discurso e ação.

Primeiro, numa sociedade madura e evoluída, a diferença esquerda-direita serve para enriquecer o debate sobre a melhor forma de essa sociedade ultrapassar coletivamente desafios determinantes. Numa sociedade menos desenvolvida e com líderes imaturos, o radicalismo antagónico esquerda-direita acaba por dividir e enfraquecer. Portugal tem imensos desafios críticos pela frente.

Segundo, muitos dos desafios que se colocam para os próximos anos atravessam o espectro esquerda-direita, nada têm a ver com a esquerda e a direita ou ainda requerem combinações de partes da esquerda e da direita. Aliás, no passado muito remoto, a ideologia era determinante para a forma como se iria organizar a sociedade. Já hoje em dia, as questões de gestão da coisa pública partilham essa relevância com a ideologia, que tem uma importância mitigada. Antes de mais, Portugal precisa de ser bem gerido, não só no topo, mas em todos os níveis das dimensões política, económica, académica, empresarial, laboral, administração pública, etc., etc. que pouco têm a ver com a ideologia, que se torna numa distração e que nos afasta daquilo que temos de fazer para andar para a frente.

Terceiro, a maior parte das pessoas, olhando para cada assunto individualmente e racionalmente, sem o rótulo esquerda-direita, iria desprendidamente nuns casos escolher opções de esquerda e noutros de direita. Em muitos casos, as pessoas nem sabem o que diferencia o pensamento de esquerda e de direita. Assumem um clubismo político e pronto. Por isso, o clubismo político, em muitos casos, funciona contra os próprios cidadãos, que os leva a apoiar soluções que os vão prejudicar.

Quarto, a sociedade tem mudado muito, tornando os atuais referenciais da direita e da esquerda cheios de incongruências e claramente insuficientes para responder aos desafios futuros. São referenciais que terão de se modernizar, assim como o fizeram no passado, mas de forma mais acelerada no futuro. Não são nada que permita a alguém o radicalismo antagónico em relação aos que pensam de modo diferente. Os próprios partidos políticos têm imensas variantes dentro de si, e pessoas que pensam de modo diferente, pelo que a agressividade extrema em relação aos outros partidos é incompreensível.


Portugal a olhar em frente
A situação de rutura financeira que obrigou Portugal a ter uma troika externa a impor medidas de sacrifício a todos colocou pressões e frustrações na sociedade que se expressaram numa maior agressividade social e política, nomeadamente na dimensão esquerda-direita.

Entrámos numa nova fase, e hoje nada justifica o radicalismo antagónico esquerda-direita que não seja a falta de bom senso individual ou coletivo, a imaturidade emocional, ou a manipulação de um eleitorado vulnerável. A agressividade verbal, o desrespeito pelas figuras públicas, o radicalismo discursivo, o antagonismo extremo são próprios de sociedades e democracias pouco desenvolvidas. Portugal só será próspero se ultrapassar rapidamente o atual clima de agressividade política.

Há qualidade de liderança para isso? Há cidadãos capazes de apoiar esses líderes? Quanto tempo demorará para a situação estabilizar novamente, onde as diferenças esquerda-direita servem para enriquecer e não para empobrecer?


23-11-2015


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CMO-PLCarlos Miguel Valleré Oliveira é CEO da Leadership Business Consulting, empresa internacional de consultoria de gestão presente em oito países, África do Sul, Angola, Brasil, Cabo Verde, EUA, Espanha, Moçambique e Portugal. Assina quinzenalmente a rubrica "Ponto de Vista" no Portal da Liderança sobre os temas da liderança-gestão, economia-sociedade e inovação-empreendedorismo. Mais informações aqui.

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