Marcelo, o discurso

Marcelo, o discurso

Que tipo de Presidente da República vamos ter? É sempre difícil de prever. No entanto, contrariamente ao que a afabilidade e a simpatia de Marcelo Rebelo de Sousa podem indicar, o seu discurso de vitória eleitoral indicia que vem aí um Presidente com uma liderança forte e com impacto transformacional na sociedade.

Carlos Oliveira

Marcelo, o homem, fez um discurso de vitória eleitoral que o posiciona já como Marcelo, o Presidente. Não esperando pelo discurso de investidura.

Com este discurso Marcelo posicionou-se desde já como o líder político do país, acima de todos os outros. O discurso ilustra todos os ingredientes de uma liderança forte, contrariamente ao que se poderia prever pela campanha eleitoral ou o seu passado. Se não cometer erros, será a figura dominante da política portuguesa nos próximos tempos.

Ancorado na legitimidade e nos valores
Marcelo apostou num discurso que lhe reforça a legitimidade, que é a base inicial de uma liderança forte, ao adotar como tema principal a unidade nacional, a coesão e a inclusão. Adicionalmente, ao reforçar a despartidarização da sua eleição, e ao referenciar que não há vencedores nem vencidos, reforçou ainda mais o processo de legitimação junto de franjas que o combateram de forma feroz na campanha eleitoral. Foi genuinamente magnânimo e afetuoso, sem recalcamentos, e isso vai aumentar a sua legitimidade e liderança política.

Ao posicionar as suas opções políticas fortemente no campo dos valores, pessoais e coletivos, e dos afetos, constrói uma âncora muito forte para a sua liderança. As raízes do exercício da sua liderança serão muito fortes.

Foco numa visão clara
Em segundo lugar, com este discurso, Marcelo apontou claramente, a todo o país e no momento certo (o das primeiras impressões nas novas responsabilidades), a sua visão e os resultados para os quais vai trabalhar, condicionando desde já os políticos em exercício. Ao tornar bem claro que o seu foco vai ser construir soluções partilhadas e mobilizadoras da forma mais abrangente possível, deixa um aviso sério a quem tem construído e lucrado com um clima de tensão e crispação, de bons e de maus, de agressividade e populismo. Marcelo tentará ser um Presidente popular (base da legitimidade democrática), mas não populista (o cancro da democracia). E passa a mensagem logo de início que irá combater de forma ativa quem apostar em radicalismos e demagogia. O aviso ficou dado. Marcelo assumiu o seu combate e disse ao que vinha, de forma suave, subtil, mas clara para bom entendedor. O discurso afetuoso tem por trás uma determinação firme e uma vontade forte que vão ser sentidas. Adicionalmente, ficou claro que o novo Presidente vai conciliar a proteção social dos mais necessitados com a estabilidade financeira e a posição europeia de Portugal, linha que não vai deixar pisar.

Inovação e transformação social
Em terceiro lugar, o discurso de Marcelo aposta na inovação social e na transformação do país. Marcelo, sim, aposta num “tempo novo”, focado na educação, nos jovens, nas futuras gerações e não na espuma do dia. O seu discurso começou por aí. Este será o desafio mais complexo de enfrentar, numa sociedade corporativa, de direitos adquiridos, por vezes mais focada no passado que no futuro. Neste discurso, Marcelo avisa que não será um Presidente de conjuntura, de gestão corrente, mas de mudança, para transformar Portugal “nos próximos cinco anos, que não será um tempo perdido”.

Coragem
Grandes enunciados. Marcelo vai fraquejar? Como todos, até pode, mas terá mais resiliência e a coragem que lhe é geralmente conferida. Ao que junta uma grande habilidade nos relacionamentos, experiência política e rapidez de raciocínio. Foi corajoso ao fazer uma campanha diferente, arriscada, não convencional. Na campanha e no discurso mostrou que arrisca, que tem a “coragem solitária” que um líder forte precisa de ter para avançar mesmo contra o seu círculo restrito de apoiantes, como homem livre e não condicionado, focado num bem maior.

O outro lado da equação
O mandato do novo Presidente da República dependerá também do outro lado da equação, da natureza dos seguidores
. Será um “povo que não se governa, nem se deixa governar”, que destroça líderes e faz tiro ao alvo aos Presidentes da República, ou um povo nobre, sábio, lúcido, que assume as suas responsabilidades individuais e coletivas não personalizando os problemas do país num Presidente, assim como noutros que assumem posições de responsabilidade coletiva.

Penso que Marcelo vai surpreender e exercer uma liderança política forte e socialmente transformadora. Mas, por melhor ou pior que seja o próximo Presidente da República, os próximos cinco anos dependem de todos nós e não de uma pessoa só.

Nota: Dado o facto de termos um novo Presidente da República eleito, a segunda parte do artigo sobre “O desafio dos próximos anos” será publicado para a semana.

25-01-2016 

CMO-PLCarlos Miguel Valleré Oliveira é CEO da Leadership Business Consulting, empresa internacional de consultoria de gestão presente em oito países, África do Sul, Angola, Brasil, Cabo Verde, EUA, Espanha, Moçambique e Portugal. Assina quinzenalmente a rubrica "Ponto de Vista" no Portal da Liderança sobre os temas da liderança-gestão, economia-sociedade e inovação-empreendedorismo. Mais informações aqui.