Contra Bruxelas, marchar, marchar

Contra Bruxelas, marchar, marchar

Está a ganhar peso na sociedade portuguesa a política da voz grossa contra Bruxelas, que é apresentada como a fonte de todos os males do país. E quem não se opuser a Bruxelas é antipatriota e colaboracionista. O foco desta narrativa é a fratura social e política, interna e externa.

Carlos Oliveira

Este crescendo do discurso radical contra Bruxelas e a agressividade política contra anteriores governantes amarram-nos a um passado que já devíamos ter deixado. Há que inverter este caminho enquanto é tempo. É preciso focar no futuro! Focar no crescimento, na esperança, na mobilização, na inovação económica e social, nas novas ideias necessárias ao desenvolvimento que cria emprego e bem-estar, no reforço de apoios (agora que podemos mais) aos mais vulneráveis social e economicamente, na convergência e pacificação política.

O discurso dos heroicos democratas nacionais a resistirem com bravado a serem espezinhados pelos burocratas ricos e exploradores de Bruxelas apela ao sentimento mais básico de muitas pessoas, colhe simpatia e votos e até serve para abrir espaço para justificar falhas de governação e a tomada de decisões internas mal vistas pelos cidadãos. Mas também colhe mais empobrecimento para todo o país. Por razões facilmente entendíveis.

Em primeiro lugar, esta agressividade política engaja os mais facilmente manipuláveis por este discurso, mas desmobiliza a maioria dos portugueses, pois afasta os jovens da política, assusta os investidores internos e fratura a sociedade.

Em segundo lugar, o discurso antieuropeu e anti troika anima algumas hostes internas, mas destrói a confiança externa no país que, por estar descapitalizado com as políticas de endividamento do passado, precisa enormemente de investimento estrangeiro para crescer e criar empregos e assim assegurar também a sustentabilidade do Estado social.

Em terceiro lugar, atacar gratuitamente a Europa, de que beneficiamos muito e de que precisamos muito, não nos faz mais independentes ou mais dignos. É simplesmente absurdo. O desenvolvimento de Portugal nos últimos 20 anos deve-se fundamentalmente ao apoio europeu – grandes montantes de dinheiro em apoios estruturais e regras de boa governação, entre muitas outras coisas. Presentemente, se não fosse a Europa a emprestar dinheiro a Portugal, a sustentar uns impressionantes quase 90% do investimento público e a impor regras de boa gestão orçamental, o país iria enfrentar a bancarrota em poucos meses. Factualmente, a Europa é o fator de segurança, de estabilidade e de desenvolvimento mais forte que Portugal pode ter.

E nada disto tem a ver com a democracia ou a burocracia europeia. Todas as ideologias políticas podem ser aplicadas em Portugal ou noutro país da União Europeia. Desde que esse país se governe de forma competente, pague as suas contas e cumpra honradamente as regras internacionais às quais aderiu e das quais muito beneficia. É assim na União Europeia, como em todo o lado e em todos os tempos históricos.

Em quarto lugar, este tipo de discurso condena o país ao engano. Passar a responsabilidade para terceiros é a melhor forma de nunca se assumirem os problemas e de os ultrapassar. A verdade é que os nossos problemas não resultam de fatores externos, mas sim de nós próprios, de uma das mais baixas produtividades na Europa, das mais altas dívidas na Europa, entre outros problemas. A nova narrativa corre o risco de reforçar o modelo de compadrio, excesso de dívida e baixo crescimento e produtividade, do qual demorará anos a sair e cuja falência nos levou aos sacrifícios, com impacto nos cidadãos mais vulneráveis, que felizmente podem agora ser ultrapassados, mas com rigor para não deixar tudo a perder. 

O discurso soberanista “contra Bruxelas, marchar, marchar”, é um beco sem saída, que só vai levar a consequências graves para todos os portugueses. Serve para passar culpas para Bruxelas. A narrativa do combate heroico de um pequeno país democrático humilhado a lutar contra poderes ilegítimos é poderosa em termos de manipulação emocional do eleitorado, mas é uma falácia perigosa. É preciso arrepiar caminho enquanto é tempo.

08-02-2016 

CMO-PLCarlos Miguel Valleré Oliveira é CEO da Leadership Business Consulting, empresa internacional de consultoria de gestão presente em oito países, África do Sul, Angola, Brasil, Cabo Verde, EUA, Espanha, Moçambique e Portugal. Assina quinzenalmente a rubrica "Ponto de Vista" no Portal da Liderança sobre os temas da liderança-gestão, economia-sociedade e inovação-empreendedorismo. Mais informações aqui.