Economia europeia vs. americana: investimento tecnológico

Economia europeia vs. americana: investimento tecnológico

A quase totalidade das novas grandes empresas mundiais nos últimos 40 anos é americana. Muito poucas são europeias. Do lado dos EUA, Silicon Valley tornou-se no símbolo mundial mais representativo do modelo de capitalismo progressista e inovador.

 Carlos Oliveira

A economia europeia está sob grande pressão, tendo levado o Banco Central Europeu a anunciar recentemente um conjunto de novas medidas – que ninguém acharia possível há uns anos – para acelerar o crescimento económico, combater a ameaça de deflação e reforçar os bancos europeus. Nestas alturas de grande pressão tendem a surgir as comparações entre o modelo europeu e o americano. São comparações que valem o que valem pois os contextos políticos, geográficos, sociais e culturais são muito diferentes. No entanto, descontando estas diferenças, estas comparações servem para tomarmos consciência das fraquezas e das forças de cada modelo e das oportunidades de melhoria.

Começando pelas oportunidades de melhoria, há fundamentos da estrutura da economia europeia que tardam em ser melhorados. Recordo uma intervenção que fiz no início do ano 2000 na conferência “Multimédia XXI” dedicada a debater a emergência da nova economia digital (internet economy) e o fim da economia tradicional (“bricks and mortar”), no contexto da “Estratégia de Lisboa”, o nome da estratégia europeia que visava tornar a economia europeia na mais competitiva do mundo em… 2006… através, grandemente, da economia do conhecimento e dos investimentos tecnológicos associados. Embalada pela euforia da época (ano 2000), a totalidade dos oradores projetou o fim da economia tradicional e uma liderança incontestada da economia europeia. Na altura, numa perspetiva de pessoa de negócios e não de perito, fui contra a corrente e salientei alguns aspetos que ainda hoje me parecem importantes. Apresento a seguir o aspeto ligado às novas tecnologias e, num artigo seguinte, falarei no aspeto ligado à estrutura económica.

Tecnologia ligada ao retorno acionista
Embora a velocidade e as oportunidades sejam muito diferentes na nova economia (que é uma evolução da economia tradicional e não verdadeiramente uma nova e distinta economia), os fundamentos estratégicos são os mesmos da economia tradicional, entre eles a necessidade da satisfação de clientes acima da capacidade da concorrência e a procura do retorno acionista acima do mercado. No entanto, acontece muitas vezes nas políticas europeias o investimento resultante do deslumbramento com a tecnologia, a aposta na ciência pela ciência, assumindo que o investimento tecnológico ou científico terá necessariamente um retorno económico. Adicionalmente, na Europa, há mais dinheiro do Estado e mais iniciativas e investimentos “políticos” na tecnologia, complementados por empréstimos bancários. Este modelo contrasta pobremente com o modelo dos EUA, muito mais pragmático e baseado no mercado e no capital de risco. No modelo americano é principalmente o mercado que assume o risco económico do investimento nas novas tecnologias, filtrando o potencial investimento logo numa fase muito inicial, por capital de risco, e, antes, “friends, family and fools” e “business angels”. Adicionalmente, as universidades estão muito mais ligadas às empresas e à economia.

Todas as comparações mostram que nas últimas quatro décadas a quase totalidade das novas grandes empresas mundiais é americana e muito poucas europeias. Silicon Valley, associado à Universidade de Stanford, tornou-se no símbolo mundial mais representativo deste modelo de capitalismo progressista e inovador (em contraste com o capitalismo financeiro de Wall Street), que a Europa começou a adotar recentemente. E onde Portugal, nos últimos cinco anos, tem dado passos de gigante. Várias cidades e capitais europeias estão, aberta e declaradamente, numa corrida para copiar e adaptar as melhores partes do modelo de Silicon Valley.

Neste contexto, a Leadership Business Consulting tem organizado anualmente, desde 2008, um programa de imersão de uma semana em Silicon Valley para executivos e empreendedores – o Global Strategic Innovation: International Executive Program. O impacto nos participantes é enorme. E é um pequeno contributo para um melhor entendimento das diferenças entre dois modelos e a adoção das melhores práticas de Silicon Valley no que respeita ao investimento na modernização tecnológica, que vai determinar grandemente o sucesso das economias e das empresas no futuro.

14-03-2016 

CMO-PLCarlos Miguel Valleré Oliveira é CEO da Leadership Business Consulting, empresa internacional de consultoria de gestão presente em oito países, África do Sul, Angola, Brasil, Cabo Verde, EUA, Espanha, Moçambique e Portugal. Assina quinzenalmente a rubrica "Ponto de Vista" no Portal da Liderança sobre os temas da liderança-gestão, economia-sociedade e inovação-empreendedorismo. Mais informações aqui.