Economia europeia vs. americana: as diferenças

Economia europeia vs. americana: as diferenças

Segue-se a segunda parte do artigo sobre a comparação entre as economias europeia e americana. 
No ano 2000, a União Europeia (UE) afirmava, através da denominada Estratégia de Lisboa, tornar-se na economia mais competitiva do mundo em 2006. Numa conferência nesse ano, coloquei algumas dúvidas sobre o eufórico anúncio, referindo cinco aspetos que ainda continuam relevantes.

Carlos Oliveira

1.º Os EUA têm um mercado de capitais bem mais desenvolvido e eficiente que a União Europeia – a maior bolsa mundial, os maiores bancos e uma elevada capacidade de investimento.

2.º Os EUA têm um mercado de trabalho bem mais flexível, que lhes permite, em simultâneo, ter taxas de desemprego inferiores às da União Europeia ao longo de várias décadas, e dar flexibilidade às empresas para se ajustarem mais facilmente em tempos de crise.

3.º Os EUA têm uma mobilidade residencial muito superior à da UE. Os americanos mudam de casa e de cidade de forma muito mais rápida que os europeus, o que permite responder mais rapidamente às oportunidades económicas com manifestação geográfica.

4.º Os EUA têm uma só língua, enquanto a União Europeia tem várias, para além de culturas e nacionalidades bem vincadas, o que destaca a sua maior riqueza cultural mas é uma limitação na competitividade económica (não se pode ter tudo).

5.º O edifício político europeu é complexo e lento a tomar decisões, enquanto nos EUA o Estado federal funciona (embora por vezes mal).

Desde aquela altura como evoluíram estas variáveis? Penso que a UE ainda tem muito a fazer para ultrapassar estas diferenças estruturais, pelo que o nível de vida dos europeus não irá aumentar substancialmente nos próximos anos comparativamente ao dos americanos.

No primeiro ponto, o mercado de capitais, repare-se na atual frágil situação da banca europeia, mesmo os maiores bancos alemães, em comparação com a rápida desalavancagem feita pelo setor financeiro americano.

No segundo ponto, sobre o mercado laboral, houve progressos significativos na União Europeia nos últimos anos, mas as diferenças ainda são enormes.

No ponto da mobilidade residencial, os jovens europeus estão a registar uma grande evolução e a recuperar aceleradamente em relação aos americanos, fruto da maior integração da economia europeia, de Schengen (até quando?) e de programas como o Erasmus, entre outros.

No ponto da diversidade linguística e cultural, a UE parece estar a regredir, com o alargamento a muitos novos países, as tensões políticas entre as nações do Norte e as do Sul, e as tensões sociais com os imigrantes. A coesão social é menor que há uns anos.

Do ponto de vista do edifício político, a cúpula da União Europeia deu passos de gigante, em reação à crise das dívidas soberanas, mas a base política parece estar a divergir, como ilustra o crescimento de partidos populistas e radicais.

A União Europeia tem ainda muito que caminhar, não só enquanto projeto político, mas também enquanto projeto económico.

Dadas estas diferenças competitivas, é natural que agentes económicos e sociais de ambos os lados mostrem grandes resistências ao Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento (TTIP, na sigla em ingês) em negociação.

Mas nem tudo é pior.

Não temos a economia mais competitiva do mundo, mas temos uma qualidade de vida geralmente superior e com menos desigualdades. Não se pode ter tudo.

04-04-2016 

CMO-PLCarlos Miguel Valleré Oliveira é CEO da Leadership Business Consulting, empresa internacional de consultoria de gestão presente em oito países: África do Sul, Angola, Brasil, Cabo Verde, EUA, Espanha, Moçambique e Portugal. Assina quinzenalmente a rubrica "Ponto de Vista" no Portal da Liderança sobre os temas da liderança-gestão, economia-sociedade e inovação-empreendedorismo. Mais informação aqui.