Viver à custa dos filhos

Viver à custa dos filhos

O legado que deixamos para os nossos filhos ou seguidores é um dos mais importantes indicadores de realização pessoal, de liderança e da Humanidade. Devemos deixar algo melhor do que encontrámos. Temos essa responsabilidade perante aqueles que trazemos a este mundo.

Carlos Oliveira

O Portugal contemporâneo corre um sério risco de falhar esta regra milenar, e os líderes políticos do primeiro quarto do séc. XXI e as gerações com mais poder de decisão e influência – mais precisamente, entre os 40 e os 65 anos de idade – poderão ficar na História com essa mácula.


O que estamos a deixar às próximas gerações
O Portugal do início do séc. XXI está a deixar às gerações futuras quatro problemas que irão demorar décadas a resolver. Um fardo geracional.


Em primeiro lugar,
uma dívida enorme, que neste momento se cifra em dívida pública de 130% do PIB (produto interno bruto) e não se vê forma de diminuir, uma vez que não há capacidade ou vontade para reduzir o défice público. Assim, todos os anos cresce a dívida pública. A esta junta-se dívida privada (das famílias através dos empréstimos à compra de casa, das empresas e, em correspondência, dos bancos que se financiam fora do país) de montantes pelo menos similares. Para além da dívida futura, os juros da dívida terão um peso significativo no dia a dia da administração pública e da economia dos próximos anos.


Em segundo lugar, o atual sistema de segurança social
– as pensões dos reformados não são pagas pelos descontos passados mas pelos descontos das gerações no ativo – conjugado com a quebra demográfica, implica automaticamente que quem começa agora a entrar no mercado de trabalho e os cidadãos dos próximos 20 anos paguem cada vez mais prestações sociais pelos que já estão na reforma e recebam cada vez menos quando chegar a sua vez. A iniquidade geracional é enorme, em termos de peso crescente dos descontos durante a vida produtiva, e depois e em termos de segurança e qualidade no final de vida.


Em terceiro lugar
, desde o início do século que a qualidade e os valores do investimento, que supostamente traz benefícios para o futuro e para futuras gerações, têm deixado a desejar. Nos primeiros anos do século a maior fatia do investimento foi em ativos pouco produtivos e não transacionáveis, que têm mais custos futuros (em manutenção) do que valor económico. Desde 2010 que a quantidade de investimento é paupérrima e continua em degradação acentuada. Associados ao baixo investimento, os níveis de poupança das famílias são muito baixos e o endividamento das empresas é altíssimo. Por isso, a capacidade de investir no futuro é baixa.


Em quarto lugar
, num mundo com uma economia cada vez mais globalizada, onde há cada vez menos fronteiras de proteção competitiva, continuamos sem fazer as mudanças que nos tornam mais competitivos, mais produtivos, mais autónomos, em vez de nos encostarmos na União Europeia (ainda a nossa única grande fonte de financiamento e de modernidade, mas cujas condições políticas para assim continuar diminuem de dia para dia).

Portugal vive numa cultura dominante com ausência de sentido de futuro. Impera o sentido do presente, dos “direitos adquiridos” nos cidadãos, da “popularidade” nas redes sociais e nos media e da “manutenção no poder” nos líderes. Em resultado, deixamos aos nossos filhos uma dívida gigante, um sistema de pensões insustentável, ausência de investimento e uma grande dependência económica de terceiros. Poderíamos encontrar ainda mais legados pesados para o futuro, no sistema financeiro, na demografia desequilibrada, entre outros.

Os líderes da nossa inteligência coletiva
A responsabilidade deste estado de coisas não é individual, mas coletiva. Não há uma decisão individual ou isolada que seja responsável ou capaz de mudar este estado de coisas. Há falha de inteligência coletiva, ou seja, uma incapacidade coletiva (das “elites” ao “povo”) em identificar o impacto de um cúmulo de decisões ao longo de um tempo prolongado. O que torna mais difícil identificar, prever e corrigir o problema. Para mobilizar uma sociedade em prol de um objetivo cujo impacto não é visível no imediato é preciso promover e desafiar a inteligência coletiva, o que depende de um conjunto de fatores.

Para quebrar essa inércia, para mobilizar a mudança, são precisos líderes – políticos, sociais, económicos e de opinião – com visão de longo prazo e com coragem para falarem verdade e serem pedagógicos em vez de facilitistas e populistas, para olharem para o interesse social em vez da sua preservação no poder, para enfrentarem interesses instalados, inércias e sistemas viciados em vez de cederem a poderes estabelecidos.

Numa sociedade democrática os líderes dependem dos cidadãos. No grave contexto coletivo atual em Portugal, os líderes que não desafiarem a nossa inteligência coletiva por manifesta intenção de auto preservação individual no poder estão a viver à custa das gerações futuras. Um custo muito grande para um ganho muito pequeno. 

20-06-2016 

CMO-PLCarlos Miguel Valleré Oliveira é CEO da Leadership Business Consulting, empresa internacional de consultoria de gestão presente em oito países: África do Sul, Angola, Brasil, Cabo Verde, EUA, Espanha, Moçambique e Portugal. O também presidente da CCILSA – Câmara de Comércio e Indústria Luso Sul-Africana assina quinzenalmente a rubrica "Ponto de Vista" no Portal da Liderança sobre os temas da liderança-gestão, economia-sociedade e inovação-empreendedorismo. Mais informação aqui.