ANJE: O papel da cultura da liderança?

ANJE: O papel da cultura da liderança?

O que é que dois dias passados com o primeiro presidente da ANJE - Associação Nacional de Jovens Empresários e a sua direção dizem sobre a cultura de liderança fundadora da entidade e do seu sucesso?  

Carlos Oliveira 

A ANJE celebra este ano três décadas, sendo claramente um projeto associativo empresarial de enorme sucesso e contributo para a economia e o empreendedorismo portugueses.  

Uma nova cultura
“Bom dia Carlos, prazer em conhecer-te e bem-vindo ao nosso congresso, mas devo informar desde já que não fazemos parcerias com organizações racistas”, declarou Pedro Barros Vale, primeiro presidente da ANJE, assim que me apresentei como presidente da AJEPP - Associação de Jovens Empresários e Profissionais Portugueses na África do Sul, no Porto, em 1987. Eu já era esperado, e aquela frontalidade foi refrescante e ilustrativa de um estilo transparente, direto, franco e sem rodeios, informal, claro e sem ambiguidades, de decisões rápidas – que não abundavam em Portugal naquela altura. Esta frontalidade permitiu esclarecer logo ali que a AJEPP, apesar de ser originária da África do Sul do apartheid, fora formada precisamente para ser uma plataforma de formação e promoção de jovens líderes portugueses a prepararem e contribuírem para um cenário pós-apartheid. Sem este estilo de liderança de confronto rápido com a realidade poderia ter saído do congresso com salamaleques no bolso mas sem parceria estabelecida. 

Os encontros nos dois dias seguintes com elementos da direção – nomeadamente Vasco Pombeiro de Sousa e Rui Faria – mostraram uma cultura de autoconfiança, de risco e de compromisso com a palavra dada. Jovens arrojados, com pensamento fora da caixa e fazedores (aprender fazendo), ao invés da cultura dominante na altura, da prosa e da crítica. Era um Portugal novo que estava a nascer e que não pedia licença. Uma cultura de liderança que desafiava o status quo em vez de se integrar nele.

Quem privou com as primeiras direçōes da ANJE conhecerá também o inverso da moeda, os eventuais defeitos. No entanto, esta nova cultura de liderança foi determinante para a fundação e sucesso do projeto ANJE. Assim como o apoio de Couto dos Santos, também ele um jovem de ideias novas no Governo da altura. 

Outro fator fundamental para o sucesso da ANJE é o facto de os líderes não poderem eternizar-se nos cargos, pois deixam de estar na categoria de “jovens” empresários, mesmo puxando o limite de idade para o extremo. Deste modo, a ANJE é obrigada a renovar a sua liderança, com as descontinuidades e riscos a que tal obriga. Isso permite que a ANJE seja também uma plataforma de formação e/consagração de novos líderes empresariais em Portugal. A elevada qualidade das pessoas que passaram pela presidência da ANJE fala por si, como é o caso dos mais recentes Armindo Monteiro ou Francisco Maria Balsemão e do atual presidente, João Rafael Koehler.  

Desafio continuado
A ANJE padecerá com certeza das várias limitações e problemas relacionados com os processos associativos e as idiossincrasias portuguesas. Assim como as empresas de maior sucesso mundial também padecem dos seus. Mas no balanço é uma obra notável construída ao longo dos anos por líderes de enorme valor, por associados ambiciosos e dinâmicos, pelo apoio continuado da comunidade empresarial envolvente e por Governos que tiveram a visão suficiente para proporcionar os apoios necessários na devida altura. Entre estes e outros elementos de sucesso, a cultura e a qualidade dos seus líderes pode ter sido o fator mais relevante. 

Um desafio futuro para a ANJE é o de continuar a desafiar o status quo e evitar tornar-se cada vez mais parte do establishment. A cultura de liderança fundadora – as suas raízes – é relevante para este continuado e permanente desafio. 

30-09-2016 

CMO-PLCarlos Miguel Valleré Oliveira é CEO da Leadership Business Consulting, empresa internacional de consultoria de gestão presente em oito países: África do Sul, Angola, Brasil, Cabo Verde, EUA, Espanha, Moçambique e Portugal. O também presidente da CCILSA – Câmara de Comércio e Indústria Luso Sul-Africana assina quinzenalmente a rubrica "Ponto de Vista" no Portal da Liderança sobre os temas da liderança-gestão, economia-sociedade e inovação-empreendedorismo. Mais informação aqui.