Esperança, desilusão e o ser mulher numa empresa - João Vieira da Cunha

Esperança, desilusão e o ser mulher numa empresa - João Vieira da Cunha

A responsabilidade social das empresas ajudou muitos pinheirinhos a ter uma vida mais digna e muitas ondinhas do mar a ter uma areia mais limpinha quando chegam à praia. O ar está mais fresquinho para os coelhinhos, mas dentro de muitas empresas o ar continua irremediavelmente contaminado de injustiça e desigualdade. É que a situação das mulheres nas empresas em Portugal é deplorável. Devia revoltar qualquer ser humano que tenha o mínimo de sentimento de justiça.

Não é preciso vasculhar muitas estatísticas para saber que as mulheres ganham bem menos do que os homens, mesmo quando desempenham trabalho de qualidade comparável nas mesmas funções. 

O relatório de 2014 sobre desigualdade de género publicado pelo Fórum Económico Mundial diz que, em Portugal, para a mesma função em que um homem ganha 1000 euros, uma mulher só ganha 590. 

Depois há o problema da ausência das mulheres em posições de liderança. Mesmo a ambiciosa estratégia para a igualdade de género que a União Europeia traçou para 2015, já se contentava que uma em cada quatro pessoas (25%) a liderar grandes empresas fosse mulher. Em 2012, esse valor era de 6% para Portugal, apesar das mulheres constituírem quase metade de todo o mercado de trabalho. 

A literatura em gestão mostra que isto não tem nada a ver com mérito nem com a ‘psicologia pop’ das revistas cor-de-rosa sobre a preponderância de lados diferentes do cérebro entre homens e mulheres. Tem a ver com as dinâmicas de poder e de influência que levam as pessoas para o topo das organizações. É uma pescadinha de rabo na boca, em que a ausência de mulheres no topo das empresas faz com que as mulheres a meio da carreira não consigam encontrar os mentores que são necessários para trepar pelas organizações acima. 

Claro que nada impede que os homens sirvam de mentores às mulheres na sua carreira. No entanto, um relatório das Nações Unidas de 2011 diz que entre 40% a 50% das mulheres foram assediadas sexualmente no trabalho, o que me deixa muito pessimista em relação à viabilidade e à bondade deste tipo de mentoria. 

Depois ainda há todas as expetativas que são impostas às mulheres quando são mães e mesmo quando apenas são casadas. Em resumo: em muitas empresas ser mulher é uma desvantagem: ganha-se menos, tem-se uma carreira mais curta e há uma assustadora probabilidade de se ser vítima de assédio.

Infelizmente a discriminação e a violência contra as mulheres vai muito para além das empresas. As mulheres também podem ter uma experiência muito difícil no dia-a-dia em sociedade. O último mês chega para o demonstrar. 

Na semana passada, um dos vídeos que andou a contagiar as redes sociais mostrava em 3 minutos a experiência de uma mulher a caminhar por Nova Iorque durante um total de 10 horas. É um vídeo perturbador que transforma numa experiência visceral o pequeno assédio quotidiano sobre as mulheres que as estatísticas não se cansam de demonstrar. 

Houve também o caso ‘Gamergate’, em que várias figuras do movimento feminista ligadas à cultura digital foram insultadas online e até ameaçadas de morte. 

Também houve a notícia do New York Times que conta como é que a NFL, a liga de futebol americano nos EUA, tentou silenciar as mulheres de vários jogadores que sofreram de violência doméstica. Isto tudo bem embrulhado na forma como as mulheres são representadas em Hollywood, na televisão e nos jogos de computador. 

É que a ‘sociedade’ não existe. Não há uma entidade invisível todo-poderosa que nos manipula. O que há são redes de expetativas que cada um de nós impõe aos outros, com base no que achamos que está certo. E onde é que aprendemos o que está certo? Nos nossos encontros com objetos culturais como os filmes com finais felizes, os reality shows e os jogos de combate em que as poucas personagens femininas só têm armaduras em forma de bikini.

É por estas e por outras que, mesmo nos países mais igualitários no relatório de 2014 sobre desigualdade de género publicado pelo Fórum Económico Mundial, não há nenhum país em que haja igualdade. O melhor é a Finlândia que tem uma pontuação de 0.85 em que 1 representa igualdade entre homens e mulheres (Portugal fica-se pelos 0.72).

As dificuldades que as mulheres enfrentam nas empresas e as dificuldades que as mulheres enfrentam na sociedade, são um problema muito complexo, com muitas causas, todas diferentes e todas relacionadas entre si, que vão desde a representação das mulheres nos media até normas culturais com centenas de anos. Parece ser um problema demasiado grande para resolver. 


Karl Weick, um dos pensadores mais originais sobre liderança no fim do século XX, mostrou que uma boa maneira de resolver problemas tão grandes que parecem irresolúveis é fazer pequenos projetos de mudança que possam levar a pequenas vitórias com grandes consequências.

ser-mulher-cplpHá uma iniciativa em Portugal que é exemplo de um pequeno projeto com poucos recursos para resolver este enorme problema. Trata-se do projeto intitulado ‘SER MULHER / EM PORTUGUÊS’. A ideia deste projeto é simples, mas poderosa. Recrutou 9 ‘madrinhas’, uma de cada país da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa) que são exemplos de perseverança e de sucesso e que podem inspirar as jovens mulheres desses países no seu próprio caminho para atingir os seus objetivos. Pode parecer uma contribuição pequena para quem não tenha lido a investigação sobre a importância dos modelos no desenvolvimento dos líderes. 

Um artigo recente no Journal of Experimental and Social Psychology, descobriu que as mulheres que participaram no estudo fazem discursos mais assertivos e eficazes se forem expostas a um modelo de liderança no feminino. Neste estudo, os investigadores puseram um grupo de mulheres a fazer um discurso na sala com um poster do Bill Clinton e outras a fazer o mesmo discurso com um poster da Hillary Clinton noutra sala. As que estavam na sala com o poster da Hillary Clinton falaram mais tempo, avaliaram melhor o seu desempenho e foram melhor pontuadas por avaliadores externos. Este ‘Efeito Hillary Clinton’ mostra como projetos como o ‘SER MULHER / EM PORTUGUÊS’ podem dar um contributo importante contra uma das mais prevalecentes violações dos direitos humanos nos países desenvolvidos e em desenvolvimento. 

Gosto muito dos pinheirinhos, das ondinhas e até dos coelhinhos. Abusamos do planeta e agora temos que salvar as arvorezinhas e os bichinhos para nos salvarmos a nós próprios. Mas se calhar antes de plantarmos mais arvorezinhas de mãos dadas, devíamos ter a certeza de que algumas pessoas que trabalham lá na empresa, não têm que pagar com o salário, a carreira e a dignidade por terem nascido mulheres. 

A iniciativa Ser mulher / Em Português é um bom exemplo de como é fácil começar quando se quer fazer muito.

 


Joao-Vieira-Cunha-colunistaJoão Vieira da Cunha é Diretor do Instituto de Investigação e Escola Doutoral da Universidade Europeia de Lisboa e professor visitante na Universidade de Ashrus, na Dinamarca. É doutorado em Gestão pela Sloan School of Management do MIT e Mestre em Comportamento Organizacional pelo ISPA. A sua investigação procura descobrir como é que as empresas podem tirar partido da desobediência dos gestores e dos colaboradores. Tem sido publicado nas principais revistas científicas internacionais na área da gestão e colabora regularmente na imprensa. A sua investigação tem ganho vários prémios internacionais de organizações, como a Academy of Management e a System Dynamics Society. Os seus clientes de consultadoria e formação de executivos incluem o Banco de Portugal, o Ministério da Saúde, a Novabase e o Barclays Bank.