A prenda de Natal que gostava de dar a quem nos governa - João Vieira da Cunha

A prenda de Natal que gostava de dar a quem nos governa - João Vieira da Cunha

Se pudesse dar uma prenda de Natal às pessoas que nos governam, dava-lhes uma fotocópia de um artigo que tem mais ou menos a minha idade e um nome muito engraçado. Chama-se ‘A insensatez de pagar por A, e esperar receber B’.

É um artigo que explica que, quando as empresas acham que estão a usar um bónus para incentivar um comportamento, na verdade podem estar a recompensar um comportamento muito diferente. 

E porque é que os políticos precisam de ler este artigo?

Porque os incentivos são uma das principais ferramentas que os políticos usam para fazer com que as empresas contribuam para o desenvolvimento dos países. E o que este artigo mostra é que os incentivos são muito perigosos. 

O pior é que os incentivos são bem mais perigosos quando são usados para influenciar o comportamento das empresas, do que quando para influenciar o comportamento das pessoas. É que, nos incentivos, os chefes têm autoridade para vigiarem os colaboradores e proibirem qualquer tentativa que estes façam para se aproveitarem dos mesmos. 

Na economia, essa relação de autoridade não existe. 

Eu sei que há regras e reguladores que as vigiam e que as aplicam. No entanto, desde a crise do ‘sub-prime’, há nos Estados Unidos mais adultos a acreditar no Pai Natal do que na regulação das empresas. 

O mais recente relatório (nº 22) do índice de confiança no sistema financeiro da Universidade de Chicago e da Kellogg School of Business mostra que 27% dos americanos acreditam no sistema financeiro (ver legenda no topo deste gráfico), enquanto que um estudo publicado no ano passado mostra que 43% dos americanos acreditam no Pai Natal (ver pergunta 7 neste inquérito). 

Infelizmente, em Portugal não se investe na produção deste tipo de estatísticas, mas as recentes aventuras do Banco Bom e do Banco Mau sugerem que é mais provável que o Pai Natal exista, do que haja uma regulação eficaz do sistema financeiro. Olhando para a forma como as empresas usam as políticas criadas pelos governos dos países em que operam, parece que a ineficácia ou a ausência de regulação não é só um mal da banca e da bolsa. Para mim, o caso mais chocante é o da Wal-Mart.

Antes de vos contar o caso da Wal-Mart, tenho que respirar fundo três vezes para escrever o próximo parágrafo sem me zangar.

Pronto, já está.

Na semana passada, foi o dia de Ação de Graças nos Estados Unidos. É um dia que, para as famílias americanas, é quase como o Natal para as famílias portuguesas. Uma loja do Wal-Mart, um dos maiores retalhistas do mundo, começou no ano passado a aproveitar o espírito de generosidade desta época, para pedir aos colaboradores que doassem alimentos a outros colaboradores da empresa que não ganhavam o suficiente para viver. Para a diretora de relações públicas da empresa, isto é uma prova fantástica do espírito de entreajuda que existe entre os colaboradores da empresa. 

Até pode ser. 

Mas é mais do que isso. É uma triste prova de que a empresa paga tão pouco aos seus colaboradores, que é preciso uma espécie de Banco Alimentar interno para que os colaboradores da empresa não passem fome, porque a empresa não lhes paga dinheiro suficiente para sobreviver. Isto numa empresa com vendas de 473 biliões de dólares, mais do dobro do PIB de Portugal do ano passado (perto de 220 biliões de dólares) e que pagou 12,8 biliões de dólares aos seus acionistas.

E qual é a relação disto com incentivos criados pelo governo? 

É simples. É que os trabalhadores da Wal-Mart só conseguem trabalhar por salários tão baixos, porque recebem ajuda do Estado sob a forma de subsídios de saúde, de alimentação e de habitação. 

Na prática, estes subsídios são incentivos governamentais aos salários baixos praticados pela Wal-Mart. Sem estes subsídios, a Wal-Mart teria que subir os salários que paga, porque, caso contrário, os seus colaboradores não conseguiriam nem sequer comer o suficiente para sobreviverem e, parecendo que não, é um bocado complicado manter lojas abertas com colaboradores em estado avançado de subnutrição. 

Já nem peço um regulador eficaz. Sei que os Estados Unidos são a terra da liberdade e do empreendorismo e que os reguladores e as regras ficam mal nessa fotografia. Mas, se fosse presidente do estado do Wisconsin, onde cada loja do Wal-Mart pode custar até 1,75 milhões de dólares aos contribuintes, era capaz de tentar perceber se não havia maneira de fazer com que o Wal-Mart detestasse tanto a intervenção do Estado no mercado de trabalho, como detesta a intervenção do Estado no mercado do retalho em que opera. 

Se fosse o Barack Obama, era capaz de ter a mesma atitude em relação aos 6 biliões de dólares (mais ou menos o dobro do orçamento do governo português para o ensino superior), o custo estimado para os contribuintes americanos da ajuda que é preciso dar aos colaboradores da Wal-Mart que não ganham dinheiro suficiente para sustentarem as suas famílias. 

Como é que se consegue responder a este desafio? Como é que se consegue garantir que as empresas não se aproveitam de incentivos que os governos nem sequer sabem que criaram?

É que o governo do Wisconsin e o governo americano não criaram benefícios sociais para ajudar o Wal-Mart. Criaram benefícios sociais para ajudar as pessoas pobres. É mais um caso do tal artigo sobre ‘A insensatez de pagar por A, e esperar receber B.’ Se calhar, trata-se de um caso mais criativo do que os que são relatados nesse artigo e, por isso mesmo, sublinha a necessidade de equilibrar benefícios e incentivos com contrapesos suficientemente eficazes.

Os estudos sobre a forma como os colaboradores se aproveitam dos incentivos das empresas, mostram que a supervisão e o controlo não são contrapesos eficazes. É demasiado fácil esconder malandrice no local de trabalho. Na economia, ainda é mais fácil, porque não está ninguém a ver o que acontece todos os dias.

Os líderes das empresas têm descoberto o poder do compromisso e da visão, para terem a certeza de que toda a criatividade dos colaboradores é aplicada para ultrapassar os desafios da sua empresa, e não para arranjarem maneira de desenrascar mais algum dinheiro no fim do mês. 

É altura dos políticos levarem a sério estas ferramentas, que já deram provas na liderança das empresas, e usá-las na liderança que os governos exercem sobre a economia. Se não o fizerem, então cada um de nós estará a pagar impostos para que um punhado de pessoas tenham mais lucro, em vez de estar a pagar impostos para que todos vivamos melhor.

 


Joao-Vieira-da-CunhaJoão Vieira da Cunha é Diretor do Instituto de Investigação e Escola Doutoral da Universidade Europeia de Lisboa e professor visitante na Universidade de Ashrus, na Dinamarca. É doutorado em Gestão pela Sloan School of Management do MIT e Mestre em Comportamento Organizacional pelo ISPA. A sua investigação procura descobrir como é que as empresas podem tirar partido da desobediência dos gestores e dos colaboradores. Tem sido publicado nas principais revistas científicas internacionais na área da gestão e colabora regularmente na imprensa. A sua investigação tem ganho vários prémios internacionais de organizações, como a Academy of Management e a System Dynamics Society. Os seus clientes de consultadoria e formação de executivos incluem o Banco de Portugal, o Ministério da Saúde, a Novabase e o Barclays Bank.