O CSI, a gestão e as teorias da conspiração – João Vieira da Cunha

O CSI, a gestão e as teorias da conspiração – João Vieira da Cunha

Porque é que há uma série como o CSI? Como é que, num dia qualquer da década de 90, alguém achou que era boa ideia fazer uma série sobre pessoas que passam o dia fechadas em laboratórios ou à procura de fios de cabelo em alcatifas da sala de estar de alguém?

A explicação mais simples é que alguém com muita experiência no setor da televisão e com muita intuição para criar um produto vencedor foi capaz de convencer uma empresa a produzir a série.

Essa é a explicação que vem na Wikipédia.

Essa é a explicação que um grande grupo de investigadores acha que é uma grande mentira e que só serve para atirar areia para os olhos da maior parte das pessoas que, coitadinhas, são demasiado ingénuas para ver a verdade.

A investigação que estas pessoas fazem chama-se teoria crítica. O seu objetivo é desmascarar as técnicas escondidas que as pessoas que mandam nisto tudo, usam para controlar o resto da população que vive numa abençoada ignorância. 

Um destes escritores da teoria crítica chama-se Richard Stivers que escreveu um livro chamado Technology as Magic, onde explica porque é que há mesmo séries como o CSI. O que Stivers diz é que o CSI existe para controlar as pessoas. A função do CSI é passar a ideia de que, com o avanço da tecnologia, é quase impossível cometer um crime sério sem se ser apanhado, pelo que as pessoas cometem menos crimes — e não é só menos homicídios, é menos crimes em geral, incluindo beber um pacote de sumo no supermercado sem pagar. A verdade é que os dados mostram outra realidade. Em Las Vegas, a cidade do primeiro CSI, um em cada oito assassinos nunca é apanhado. Em Nova Ioque, onde se passa outro CSI, um em cada três assassinatos fica por resolver. Em Miami, a cidade do CSI com as atrizes e atores que estão mais em conformidade com o padrão de beleza dominante no que o James Bond chamaria ‘Mundo Ocidental,’ dois em cada cinco homicídios ficam sem castigo. Aliás, o artigo em inglês sobre ‘assassinatos’ na Wikipédia cita uma investigação que mostra que a taxa de resolução deste tipo de crime tem diminuído ao longo do tempo, apesar dos avanços científicos. 

Por isso é que precisamos na televisão das séries como o CSI: como a polícia não consegue apanhar os criminosos, então resta criar a imagem de que os criminosos são sempre apanhados, para ver se estes têm medo de cometer os crimes que têm em mente e não avançam.

Há também uma teoria crítica aplicada à gestão que tenta expor estas conspirações para manter as pessoas controladas. A teoria crítica da gestão estuda vários temas. Um dos meus preferidos é o dos ‘Projetos para o Eu.’ As pessoas que estudam este tema, mostram que cada empresa tem um trabalhador ideal e afirmam que estas usam uma série de técnicas para se assegurarem de que as pessoas tomam para si próprias a responsabilidade de se tornarem o tipo de pessoa que dá mais jeito às empresas. Por exemplo, dá jeito às empresas que as pessoas sejam obcecadas com a sua produtividade, porque assim não têm que gastar dinheiro em incentivos para melhorar a produtividade nem desenvolver líderes que sejam capazes de puxar pelos seus colaboradores. Hoje, as empresas não precisam de fazer isso, porque andamos todos obcecados pela nossa produtividade. 

Quantas apps é que tem para se tornar mais produtivo? Eu, sendo muito restrito, tenho duas: uma para contar o meu tempo diário de escrita e outra com a minha lista de tarefas. Isso sem contar com a minha app de agenda e com as apps que facilitam o meu trabalho, como as que me permitem sincronizar o que escrevo no telemóvel, no tablet e no portátil, para poder escrever, mesmo quando vou no metro (até atingir o meu objetivo de três horas por dia, que meço na minha app que controla o meu tempo de escrita). 

E isto é tal e qual como o CSI. Não é a polícia que faz o CSI, é uma cadeia de televisão. Porquê? Porque as pessoas que mandam na televisão, os tais 1%, precisam de ter a sociedade sob controlo e, por isso, se a polícia não o consegue fazer, não há problema, a televisão controla. Também não é a empresa em que você trabalha que o convence a adotar processos de gestão do tempo como o ‘getting things done’ e a usar as apps que usa para ficar mais produtivo. São os blogs como o Lifehacker, propriedade de uma grande empresa. E, diz a teoria crítica da gestão, que todas as grandes empresas estão nas mãos dos ‘Donos Disto Tudo,’ a quem dá muito jeito que você seja uma máquina de produtividade.

Bem, diz aqui a minha app que ainda tenho uma hora e meia para escrever hoje. Por isso, até à próxima!

 


Joao-Vieira-da-CunhaJoão Vieira da Cunha é Diretor do Instituto de Investigação e Escola Doutoral da Universidade Europeia de Lisboa e professor visitante na Universidade de Ashrus, na Dinamarca. É doutorado em Gestão pela Sloan School of Management do MIT e Mestre em Comportamento Organizacional pelo ISPA. A sua investigação procura descobrir como é que as empresas podem tirar partido da desobediência dos gestores e dos colaboradores. Tem sido publicado nas principais revistas científicas internacionais na área da gestão e colabora regularmente na imprensa. A sua investigação tem ganho vários prémios internacionais de organizações, como a Academy of Management e a System Dynamics Society. Os seus clientes de consultadoria e formação de executivos incluem o Banco de Portugal, o Ministério da Saúde, a Novabase e o Barclays Bank.