Mas ... 11 euros por umas calças de ganga? - Rute Sousa Vasco

Mas ... 11 euros por umas calças de ganga? - Rute Sousa Vasco

Há cerca de um ano, fiz a minha primeira incursão numa loja Primark. Já tinha ouvido falar dos preços, da euforia, da confusão, do sucesso empresarial. Mas ainda não tinha posto os pés numa loja. O que se passou nos menos de 30 minutos que passei lá dentro foi esclarecedor. Uma espécie de alucinação coletiva em que se reviravam calças, luvas, cuecas, chinelos, camisolas com a voracidade de quem procura o elixir da vida eterna.

As filas nos provadores ou nas caixas não impressionam ninguém com alguma experiência de consumo - não são piores ou maiores do que as de qualquer Zara. Mas a voracidade é, ainda assim, outra. Mais intensa, mais sôfrega, mais rápida. A velocidade com que se agarram e largam peças é estonteante. 

Ainda assim, a conta que não me saía da cabeça era a dos 11 euros. 11 euros por umas calças de ganga, aparentemente tão de ganga e tão 'modernas' como quaisquer outras que, em média, não se compram por menos de 25 ou 30 euros, em bom preço. 

Como se conseguem vender umas calças a 11 euros e pagar o tecido a quem o vendeu, o trabalho de as costurar, a quem costurou, o trabalho de as distribuir, a quem distribuiu, e o trabalho das pessoas de cada loja? E ficar com a margem que faz da Primark um negócio lucrativo? É uma conta simples e uma equação que aparentemente não pode fechar. 

Stephen Springham, analista na Planet Retail, empresa especialista em informação no sector da distribuição, diz que tudo se explica por uma questão de volume.”It’s all about volume, volume and volume and there’s little place for e-commerce in this model. But it means that the stores must be compelling, which Primark stores are, and have rapid stock-turn, which Primark does”. (1) 

Porque vende muito, a Primark compra muito, logo consegue descontos de quantidade que permitem os preços baixos que, por sua vez, conduzem a que muitas pessoas comprem os seus produtos. Nada de novo - ou nada que não conheçamos desde que a grande distribuição entrou nas nossas vidas.

Mas ... 11 euros por umas calças de ganga?

Os donos da Primark são a Associated British Foods (ABF), controlada pela família do CEO George Weston e dona de marcas como o açúcar Silver Spoon ou o chá da Twinings. A ABF é uma empresa querida pelos analistas - sobretudo quando a Primark ameaça destronar gigantes como o grupo Zara ou o britânico Marks & Spencer. 

A ABF, e a Primark em concreto, era uma das 27 empresas que fabricavam roupa no edifício Rana Plaza, no Bangladesh, que a 24 de abril de 2013 desabou, levando à morte de 1100 pessoas que lá trabalhavam. A Primark é umas das empresas mais generosas nas indemnizações aos lesados.

A Primark faz o mesmo que tantos outras - usa a vantagem da escala e da distância.

Afinal, o que nos interessa a nós em que condições chegam iphones da China, camarões de África, kiwis do sudeste asiático ou simplesmente algodão, a matéria-prima de base a 90% das roupas que nos fazem tanto mais felizes, quanto mais pechinchas forem?

Se não interessa, vai ter de passar a interessar. A globalização, essa palavra bendita e maldita, significa, em última análise, um mesmo mundo. Significa que os problemas dos outros são os nossos problemas também ou, como se diz na gíria, que isto anda tudo ligado. 

“Nós” e “eles” é, simplesmente, uma fórmula que já não tem defesa. Neste caso, nós, consumidores, compradores, cidadãos, temos uma palavra a dizer sobre os produtos e marcas que “eles”, empresas, fabricantes, intermediários, colocam no mercado. Vão ver que funciona.

(1) “É uma questão de quantidade, quantidade e quantidade, e há pouco espaço neste modelo para o comércio eletrónico. Mas isto significa que as lojas têm de ser atrativas, o que as da Primark são, e fazerem uma rápida mudança de stocks, o que a Primark faz.”

 


Rute-VascoRute Sousa Vasco é jornalista, diretora editorial do Portal SAPO e partner da Videonomics. Como autora, tem desenvolvido vários trabalhos nas áreas de gestão, comunicação e responsabilidade social, tendo publicado até ao momento o livro “A Sorte dá Muito Trabalho: O percurso de 23 CEO portugueses” e "Banco Bom, Banco Mau". Na vertente multimédia, tem-se dedicado à produção de conteúdos em temas de empreendedorismo, liderança e criatividade. Frequentou o curso de Relações Internacionais no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas e tem uma Pós-Graduação em Marketing pela Universidade Católica Portuguesa e uma Pós-Graduação em Televisão e Cinema pela mesma universidade.