O ministro das finanças que descobria projetos no urinol – João Vieira da Cunha

O ministro das finanças que descobria projetos no urinol – João Vieira da Cunha

O Ministro das finanças da Grécia, Yanis Varoufakis foi mais popular na Internet esta semana do que a Paris Hilton e do que Kim Kardashian. Uma pesquisa no Google por “Varoufakis” na semana que passou dá 6 páginas de resultados. A mesma pesquisa por “Paris Hilton” dá cinco páginas e por “Kim Kardashian” dá quatro páginas.

Para mim, a popularidade do Varoufakis é interessante, porque traz uma nova perspetiva a uma pergunta importante, mas difícil de responder: será que devemos começar a ir buscar gestores às empresas para virem para a política?

A política pode ser vista como uma atividade humanista, que tem como objetivo criar uma sociedade melhor. Nesse caso, precisamos no governo de pessoas da filosofia e da teoria social. São essas pessoas que conhecem o suficiente do pensamento político e da condição humana para fazerem essas escolhas. 

Mas, hoje em dia, não é assim que olhamos para a política. Olhamos para a política como uma atividade técnica. Ser político é gerir um país, um município, uma freguesia. Se a política é um tipo de gestão, então faz sentido que os melhores políticos sejam as pessoas que gerem empresas, porque as empresas são o melhor sítio para aprender gestão.

Há pessoas que acham que ir buscar políticos às empresas é perigoso, porque as empresas só estão preocupadas com o dinheiro e que o que os gestores das empresas gostam de fazer é cortar custos. Mas não é isso que os políticos estão a fazer nos países do Sul da Europa? Se a política se transformou em gestão, então mais vale termos gestores, em vez de pessoas que até agora não souberam cortar custos e, por isso, recorrem ao aumento de impostos.

Se é para termos gestores na política, então temos que ter uma conversa um bocadinho mais cuidadosa sobre isto de trazer pessoas das empresas para a política. É que, até agora, esta conversa está baseada numa ideia errada - a de que todas as empresas são iguais. Não são e o Varoufakis é um excelente exemplo disso.

É que o Varoufakis vem da Valve e a Valve é uma empresa muito diferente de muitas outras empresas. O manual da Valve (acessível aqui ) diz que:

[Na Valve] não temos gestores, e ninguém ‘reporta’ a ninguém. Temos um fundador / presidente, mas ele não é o teu chefe. A empresa é tua para a dirigires para novas oportunidades e a afastares dos riscos. Tu tens o poder para dar luz verde a projetos. Também tens poder para por produtos no mercado.”


O título provocador deste artigo vem da figura 2-4 do manual da Valve (página 22). Essa figura tem quatro imagens que correspondem a quatro sítios onde um trabalhador da Valve descobre projetos em que pode trabalhar. A última é a casa de banho, onde se veem dois homens a falar, enquanto cada um usa o seu urinol.

Este tipo de empresa não tem nada a ver com a maior parte das empresas onde há hierarquias, chefes, processos de gestão de projetos e aprovações formais para lançar um produto para o mercado.

É mais ou menos óbvio que um ministro das finanças que venha da Valve não terá nada a ver com um ministro das finanças que venha de um banco de investimento, desses que não tiveram culpa nenhuma na crise em que o nosso bonito país se encontra. Por isso, não podemos apenas protestar que Portugal estaria melhor se também fôssemos buscar um ministro das finanças às empresas. Temos de saber a que tipo de empresas é que íamos buscar o dito ministro para as finanças ou para outra pasta qualquer.

Tenho uma sugestão: que tal procurarmos ministros entre os líderes das empresas que estão empenhados em contribuir para a sociedade, melhorando a vida das pessoas que lá trabalham? É que este ponto de vista falta muito na política. E já temos pessoas que cheguem preocupadas com custos e ratings.

Não está provado que melhorar a vida dos colaboradores dá dinheiro, pelo que melhorar a vida dos colaboradores é uma decisão ideológica. Por isso, trazer pessoas destas para a política é não termos que escolher entre o humanismo e a eficiência.

E isso é bom.

 


Joao-Vieira-Cunha-colunistaJoão Vieira da Cunha é Diretor do Instituto de Investigação e Escola Doutoral da Universidade Europeia de Lisboa e professor visitante na Universidade de Ashrus, na Dinamarca. É doutorado em Gestão pela Sloan School of Management do MIT e Mestre em Comportamento Organizacional pelo ISPA. A sua investigação procura descobrir como é que as empresas podem tirar partido da desobediência dos gestores e dos colaboradores. Tem sido publicado nas principais revistas científicas internacionais na área da gestão e colabora regularmente na imprensa. A sua investigação tem ganho vários prémios internacionais de organizações, como a Academy of Management e a System Dynamics Society. Os seus clientes de consultadoria e formação de executivos incluem o Banco de Portugal, o Ministério da Saúde, a Novabase e o Barclays Bank.