Quando a ideologia condiciona a Gestão - Camilo Lourenço

Quando a ideologia condiciona a Gestão - Camilo Lourenço

Um dos problemas da economia atual é que esta muda mais rapidamente do que a política. Daí não adviria qualquer problema se a mesma política não condicionasse a economia, complicando, e atrasando, a sua reconversão.

Portugal é um bom exemplo desta asserção. A Constituição da República foi sempre revista a correr atrás do prejuízo: em 1982, por exemplo, os partidos não se entenderam quanto à necessidade de acabar com a cláusula da “irreversibilidade das nacionalizações”. Sete anos depois, o legislador foi obrigado a reconhecer que essa verdade se tornara obsoleta. Mas há mais exemplos. Um deles é a Lisnave. Quando a empresa foi nacionalizada, passou a ter mais de 12 mil trabalhadores (duplicando o número de efetivos à data da revolução). Isto porque o governo da altura resolveu colocar no universo da Lisnave todos os efetivos que trabalhavam nas empresas suas fornecedoras. 

A presença do Estado foi um poderoso aliciante (diria mesmo condicionante) para travar a mais do que necessária reestruturação da empresa. Os sindicatos, sabendo que o Estado (detinha 30% do capital) não levantava um dedo para travar a sua influência na Gestão, faziam o que queriam: greves, manifestações, piquetes... E a Lisnave foi-se afundando. 

Em meados da década de 90, quando a União Europeia pôs um travão às ajudas de Estado (coisa de que a Lisnave beneficiara nas décadas anteriores), a empresa encaminhava-se rapidamente para o encerramento. Até que houve um sopro de bom senso: António Guterres, então primeiro-ministro, decidiu alienar os 30% que o Estado detinha na empresa (fora os 100% da Setenave). O empresário José Manuel de Mello, outro grande acionista, decidiu também alienar a sua posição. Por um dólar. Compradores? Não, não foi nenhum grupo estrangeiro; foi um pequeno grupo de quadros da empresa. 

A reconversão do modelo de negócio que se seguiu nos anos seguintes, produziu um milagre: a Lisnave voltou a ganhar dinheiro. Isto é, a ser viável. Porquê? Porque, em vez de ter um universo de 6 mil trabalhadores, que não se justificavam pela escassez de encomendas, passou a ter apenas 300 efetivos. Os restantes passaram a ser chamados a prestar serviços em função das encomendas dos clientes da empresa. Em certas alturas do ano, por exemplo, chegam a trabalhar nos estaleiros da Mitrena (a Margueira foi abandonada nos anos 90) vários milhares de pessoas. 

Foi esta reinvenção do modelo de negócio que permitiu à Lisnave manter a atividade de reparação naval em Portugal, invertendo um desfecho que parecia certo: o encerramento. Os resultados são tão interessantes que a Lisnave não só voltou a ganhar dinheiro, como se prepara para distribuir pelos trabalhadores efetivos 1,2 milhões de euros. 

É claro que há sempre forma de olhar para estas coisas como um copo meio vazio. Dizendo, por exemplo, que mais de seis mil trabalhadores perderam um emprego seguro e permanente. Mas não é isso inevitável quando as condições de concorrencialidade das empresas muda? Ou seja, não é preferível esta solução à alternativa que dá pelo nome de encerramento da empresa? Parece óbvio… a menos que a ideologia se intrometa na análise.

 


Camilo-Lourenço-FotoNova-coluna-1Camilo Lourenço é licenciado em Direito Económico pela Universidade de Lisboa. Passou ainda pela Universidade de Columbia, em Nova Iorque e University of Michigan, onde fez uma especialização em jornalismo financeiro. Passou também pela Universidade Católica Portuguesa. Comentador de assuntos económicos e financeiros em vários canais de televisão generalista, é também docente universitário. Em 2010, por solicitação de várias entidades (portuguesas e multinacionais), começou a fazer palestras de formação, dirigidas aos quadros médios e superiores, em áreas como Liderança, Marketing e Gestão. Em 2007 estreou-se na escrita, sendo o seu livro mais recente “Saiam da Frente!”, sobre os protagonistas das três bancarrotas sofridas por Portugal que continuam no poder.