Como Silicon Valley se tornou “Silicon Valley”?

Como Silicon Valley se tornou “Silicon Valley”?

Esta pergunta tem sido feita por representantes de Governos ao longo dos anos. Tenho passado algum tempo a pensar nisto, e acabo por chegar sempre à mesma conclusão.

Matt Walters

– O artigo que se segue é da autoria do managing director do Runway, plataforma situada em São Francisco, nos EUA, que tem por objetivo criar a melhor comunidade de empreendedores. Matt Walters comenta a posição que as entidades públicas deveriam ter para apoiar o empreendedorismo. E aponta o “laissez faire” vigente. No entanto há algumas iniciativas europeias público-privadas que estão a fazer a ponte entre o velho continente e a Baía de São Francisco. É o caso da Portugal Ventures que, através da Leadership Business Consulting, está presente no Runway e fornece às empresas espaço e apoio para serem introduzidas no ecossistema da Baía. Este é um modelo que está a funcionar bem para as start ups que sabem como o usar de forma eficaz. A preparação é crucial – saber o que se quer obter da ida a São Francisco e como o fazer. E as start ups podem contar com a Leadership Business Consulting, através da Portugal Ventures, para as ajudar no processo.
Há também o acelerador alemão no Runway, cujo programa é um pouco diferente – decorre em três meses e é uma parceria entre os setores público e privado. Mas a premissa é a mesma da da Portugal Ventures: como fornecer às start ups uma exposição significativa e com valor acrescentado junto do ecossistema único que é o da Baía de São Francisco.

Há uns dias recebemos um grupo da Suécia, e havia pessoas interessadas ​​em falar sobre o papel do Governo no apoio à inovação. Esta pergunta tem-me sido feita por representantes de Governos ao longo dos anos. No cerne de cada indagação está a questão de como Silicon Valley se tornou “Silicon Valley” – a terra de sonhos e inspiração para incríveis programas satíricos de televisão. Acredite-se ou não, há milhares de pessoas no globo a pensar nesta questão, porque afeta aspetos como postos de trabalho, política, orçamentos, etc. Tenho passado algum tempo a pensar nisto, e acabo por chegar sempre à mesma conclusão. Que é preciso um grupo de pessoas criativas, inteligentes e ambiciosas, com uma mente livre para construir produtos e serviços inovadores.

Penso que algo de especial acontece quando se reúne um grupo de pessoas inteligentes que querem construir algo, e as deixamos sozinhas por um tempo. Parece que há uma correlação direta entre entidades de educação de alto calibre e inovação. No entanto considero que as instituições de ensino não estão a fornecer a estrutura para a criação de produtos e de empresas; penso que é o dia de trabalho solto (sejamos francos, acaba-se por estar na sala de aula cerca de 12 horas por semana) e o facto de se viver e trabalhar junto que dá origem à criação. E a maioria dos grandes movimentos são iniciados por pequenos grupos de pessoas que estão a criar coisas umas para as outras sem se se preocuparem em fazer dinheiro. É o caso da bitcoin, a computação pessoal, etc.

Então, o que podem os Governos fazer para ajudar? Bem, penso que o que quer que ajudasse o que acabo de referir seria um passo na direção certa. Ou seja, juntar pessoas inteligentes e ambiciosas que estão interessadas ​​em construir algo e deixá-las sozinhas por um tempo. E depois não ficar excessivamente preocupado com o que estão a criar. Isto poderia significar proporcionar algo semelhante a uma bolsa de estudos para jovens promissores que poderiam receber apoio financeiro enquanto trabalham nas suas ideias. Poderia significar a criação de universidades financiadas pelo Governo que não têm um currículo tradicional e estão mais focadas em trabalhar em conjunto em coisas interessantes. E quaisquer “aulas” deveriam ser lideradas por empresários ou inventores, atuais ou antigos, e não académicos. E, muito importante, o que quer que os Governos façam, não devem sobrecarregar os fundadores com questões como a dívida, ou insistir em deter participações nas empresas que apoiam. O retorno financeiro de qualquer Governo deve vir sob a forma de aumento do PIB, de emprego, etc. E nem mencionei nada sobre o capital de risco investir no ecossistema, porque considero que, com o passar do tempo, o capital de risco irá sempre fluir para centros de inovação.

Será que estas ideias funcionam? Será que é suficiente? Há realmente qualquer coisa que um Governo possa fazer para ajudar a promover um ecossistema de start ups? Não sei. Mas gosto da ideia de Governos apoiarem projetos da mesma forma que fazemos no Runway. E gosto do facto de eles estarem a dedicar o seu tempo a vir cá e perguntar. 

30-11-2015

 

Matt WaltersMatt Walters é managing director do Runway, espaço que abriu portas em janeiro de 2013 com o objetivo de criar a melhor comunidade de empreendedores de São Francisco, nos EUA. Situado perto do Twitter, Yammen, Sosh e One Kings Lane, o Runway está no epicentro da inovação.