As relações positivas no trabalho importam – cada vez mais

As relações positivas no trabalho importam – cada vez mais

Se tivesse só mais este dia de vida, qual seria o seu maior arrependimento? Seguem-se hipóteses de resposta:

A) Devia ter escrito/respondido a mais e-mails.

B) Devia ter comprado ações da Google.

C) Gostava de ter tido aquela promoção.

D) Gostava de ter passado mais tempo com as pessoas que amo.

Se escolheu a hipótese A, por favor, pare de ler e volte para os seus e-mails. Se respondeu B ou C, ainda está a tempo de realizar aquele investimento vencedor ou de conseguir a promoção. Ou talvez não. Mas suspeito que tenha respondido D, certo? Todos sabemos o que é importante, mas – ironicamente – tendemos a fazer o oposto. Somos prisioneiros no que diz respeito à dissonância cognitiva. Isto porque as relações importam, não só na vida pessoal como também na vida profissional.

A forma como definimos o sucesso está desajustada. A primeira ferramenta para repensar o sucesso é rever o valor dos relacionamentos. Harvard iniciou um estudo no período de 1939-1944 para entender quais os fatores que tornam as pessoas felizes, saudáveis ​​e com maior longevidade. Na pesquisa, gerações de investigadores têm vindo a acompanhar, ano após ano, a vida de 724 homens nascidos e criados em Boston (60 dos quais ainda estão vivos), colocando-lhes perguntas sobre o seu trabalho, família e saúde, ouvindo as suas famílias e observando como as suas vidas evoluíram ao longo de 75 anos.
As conclusões do estudo são ao mesmo tempo surpreendentes e… óbvias. São as relações duradouras e positivas com as pessoas ao nosso redor, que amamos e respeitamos, que nos fazem felizes. E viver uma relação negativa ou tóxica tem efeitos nocivos para a nossa saúde, felicidade pessoal e expetativa de vida.


As relações positivas com os outros, com base na confiança, respeito e carinho não só prolongam as nossas vidas como nos fazem mais felizes, mas também nos protegem de doenças. Sabendo que podemos contar com aqueles que nos amam – mesmo que não concordemos com eles – gera segurança interior, um sentimento de que não estamos sozinhos neste planeta.

Lições do Ártico sobre trabalho em equipa
Mas o que significa tudo isto no âmbito da esfera profissional e a forma como julgamos se estamos ou não a conduzir carreiras de sucesso? As pessoas à nossa volta ajudam-nos a tomar melhores decisões e nós também as podemos ajudar nesse sentido. Vamos supor, por exemplo, que estamos perdidos algures perto do Ártico, e temos 20 objetos – uns poucos alimentos, uma lanterna, um isqueiro de butano, sacos de plástico – mas temos de escolher apenas uns quantos para sobreviver. Quais os que escolhemos? Este exercício tem sido realizado por muitas equipas, e o resultado é sempre o mesmo: as decisões tomadas de modo individual nunca são tão boas como as tomadas em grupo. Os suprimentos salva-vidas só são reunidos da melhor forma quando são tidos em conta os vários pontos de vista. Já agora, se tiver optado pela lanterna, má escolha – a certa seria o isqueiro de butano, uma vez que permite acender uma fogueira e pode ser usado como sinal de emergência.

A maioria das decisões no trabalho não tem um impacto imediato de vida ou morte, felizmente – mas trabalhar com os colegas de forma positiva pode ter um impacto significativo na nossa saúde e felicidade. O feedback dos colegas é essencial para crescer, aprender e aproveitar novas oportunidades.

Mudar a forma como pensamos em rede
Passamos pelo menos 40 horas por semana com as pessoas com quem trabalhamos. É claro que os colegas não são nossos companheiros em todas as esferas da nossa vida (se bem que não são poucos os que se casam com pessoas que conheceram no trabalho). No entanto os relacionamentos positivos no escritório, baseados no respeito, cooperação e confiança, são essenciais para o nosso bem-estar. Temos de interiorizar a ideia de que o networking não funciona quando nos envolvemos com as pessoas só quando “precisamos” de algo delas: temos de dar constantemente o nosso tempo, atenção, respeito e ajuda. 

Há pessoas que perdem a serenidade ao trabalhar num ambiente de trabalho tóxico, permeadas por energia negativa. Embora por vezes não possamos mudar de forma drástica o que acontece no escritório, podemos mudar a maneira como reagimos. Podemos, por exemplo, cantar para nós mesmos a música “Should I Stay or Should I Go?”, dos Clash, e refletir sobre a questão. E depois há aquelas pessoas que, após se demitirem de um cargo, ao saírem da empresa é como se estivessem a deixar Chernobyl para trás.

Saber que o que realmente importa é a qualidade das relações que temos com aqueles que nos rodeiam, tanto nas nossas vidas pessoais como profissionais, permite-nos ver as pessoas em redor não como inimigos ou como meros instrumentos para atingir o sucesso, mas como aliadas na nossa jornada. Antes de “recursos humanos” somos seres humanos. Assim, que tal convidar o seu colega para um café? Ou então regresse ao seu próximo e-mail…

16-12-2016


Portal da Liderança

Nota: Este artigo é adaptado de um texto produzido por Paolo Gallo, chief human resources officer, Fórum Económico Mundial, para a Global Agenda.