Como liderar na era digital? – Sem descurar o fator humano

Como liderar na era digital? – Sem descurar o fator humano

A também apelidada sociedade em rede comporta várias mudanças estruturais que estão a redefinir a liderança. Aliás, os próximos tempos são dos “líderes digitais”. Por todo o globo a liderança em diferentes domínios começou a entrar na revolução digital e a reconhecer o poder da tecnologia para “mudar o jogo”, afirmam num artigo conjunto Artur Kluz (advogado; assessor de política externa; general partner na empresa de investimento Kluz Ventures, focada em tecnologias inovadoras e estratégias de crescimento global) e Mikołaj Firlej (mestre em políticas públicas pela Oxford Blavatnik School of Government). 

A tecnologia digital tem vindo a transformar a política, os negócios, a economia, a sociedade, o nosso dia a dia – não só alterou modelos antigos nas organizações como criou novos desafios. Os exemplos da revolução tecnológica abundam. A rede de social media mais popular não cria conteúdo de raiz (Facebook), os bancos que mais crescem não têm realmente dinheiro (SocietyOne), a maior empresa de táxis do mundo não detém um único carro (Uber), e o maior operador de hospedagem não possui imobiliário (Airbnb). Os disruptores de hoje movem-se com um combustível completamente diferente e, por vezes – como se vê por estes exemplos – revolucionam até mesmo as características mais básicas das indústrias

No plano conceptual, a era digital – também apelidada de sociedade do conhecimento ou sociedade em rede – é marcada por várias alterações estruturais que, de acordo com os autores, estão a redefinir a liderança: (1) mudanças tecnológicas rápidas e de longo alcance, (2) globalização que leva à dinâmica propagação de informação, (3) mudança dos atributos físicos em direção ao conhecimento, (4) formas de organização mais dispersas e menos hierárquicas.

Impacto da era digital na liderança
As competências tradicionais não foram suplantadas, agora coexistem com uma mistura de novos fatores. A liderança digital pode ser definida como a contribuição de um líder para a transição para uma sociedade do conhecimento e o seu conhecimento da tecnologia. Os líderes digitais têm a obrigação de se manter a par da revolução global em curso – devem perceber a tecnologia, não apenas como facilitadores mas também pela sua força revolucionária.

Assim, a liderança deve ser conduzida por uma atitude de abertura e uma verdadeira fome de conhecimento. Artur Kluz e Mikołaj Firlej referem que não há nenhuma regra que dite que os líderes devem ser especialistas em codificação, mas é imperativo que entendam o impacto das tecnologias de ponta. Os líderes de hoje devem ter a capacidade de identificar tendências tecnológicas em diferentes setores, como big data, cloud computing, automação e robótica. No entanto, em primeiro lugar devem ter conhecimento suficiente e a visão para utilizar estes recursos de forma mais eficaz.

Depois, na sociedade do conhecimento, o que não sabemos é tão importante como o que sabemos. Os líderes devem reconhecer os seus limites e saber como adquirir o conhecimento em falta. O líder do futuro é mais gestor da comunidade que um chefe autoritário. Pelo que hoje se observa um declínio nos modelos hierárquicos tradicionais de organização. Basta ver como a organização dos Governos ocidentais mudou nos últimos anos. Vários Estados introduziram ou reforçaram os processos de consulta pública, bem como tornaram pública informação para benefício dos cidadãos. Estes processos vão continuar a crescer. Como resultado o modelo hierárquico tende a ser suprimido e substituído por estruturas horizontais entre os executivos, líderes de diferentes setores, investigadores e representantes da sociedade civil. A hierarquia falha na era digital porque é lenta e burocrática, enquanto o novo mundo está em constante mutação e exige respostas imediatas. 

A informação é capital. Hoje o poder não se adquire pela expansão de novos territórios ou áreas de influência, mas pelo aprofundamento e alargamento de redes e conexões. Qual é então o papel do indivíduo ou líder – as qualidades que distinguem um grão de areia do outro?

A tecnologia como oportunidade
Temos de mudar o enfoque, deixar de olhar para as novas tecnologias como uma ameaça e passar a vê-las como as oportunidades que representam. Claro que, como frisam Artur Kluz e Mikołaj Firlej, não podemos ignorar a ameaça das novas tecnologias. Na Índia, por exemplo, cerca de 850 sites do Governo foram invadidos desde 2012. E recentemente hackers conseguiram entrar nas redes do Executivo dos EUA e subtraíram mais de 5,6 milhões de registos de impressões digitais. Mas o Governo nem sempre é a vítima – também pode ser predador. Há não muito tempo o Twitter alertou os seus utilizadores que podiam ter sido alvo de um ataque patrocinado pelo Estado. 

O debate sobre a ameaça tecnológica, especialmente a internet, nunca vai ter fim. O poder político tem proposto diferentes formas de regulação, mas está sempre um ou dois passos atrás; isto porque a lei e os regulamentos são estáveis ​​e projetados para o longo prazo, enquanto o ambiente digital muda rapidamente. No que diz respeito aos aparelhos ligados à net, não existe segurança absoluta, o dispositivo pode começar por ser seguro hoje e amanhã já não ser. 

Os autores não consideram que a regulação é ineficaz e que se deve abandonar todas as soluções legais para a criação de um ambiente mais seguro, antes sugerem que se olhe para as tecnologias por outra perspetiva. Isto porque podemos transformar o único aspeto que é bom e mau nas tecnologias de ponta – o fator humano.

Ao reconhecerem que a tecnologia digital desempenha um papel decisivo no nosso futuro, os líderes não podem dar-se ao luxo de ter medo ou relutância em a implementar. Devem antes acolhê-la com uma visão clara do seu potencial. Afinal, fomos a Marte porque a tecnologia permite tentar a exploração noutros planetas. E desenvolvemos coisas fantásticas todos os dias – carros autónomos, pilhas mais potentes, o Apple Watch, drones – para citar apenas algumas.

A combinação equilibrada de características universais e traços de liderança digital tem o potencial para nos guiar por anos de transformação com otimismo. A tecnologia continua a provar que pode ser usada para nosso benefício, mas só se estivermos no caminho certo e tivermos os líderes certos. Preparados?

29-03-2017


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